sexta-feira, 26 de março de 2010

Entrevista com o cientista Jefferson Simões


O cientista e explorador polar, Jefferson Simões, liderou a primeira expedição brasileira ao interior do continente antártico. Além de professor no Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, é coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera

Para Jefferson Cardia Simões, este Natal será bem diferente do de 2008. Ele poderá estar no aconchego de sua casa em Porto Alegre, ao lado da mulher, Ingrid, e dos filhos Felipe, de 22 anos, e Carolina, de 20. “No ano passado, eu estava ao lado de outros sete pesquisadores, ao redor de um pequeno fogão, no interior de uma barraca, à temperatura de 8 graus negativos, a mil quilômetros do polo Sul geográfico. Sorte que havia um bom vinho chileno para esquentar”, lembra-se ele. Desde 1990, Simões já esteve na Antártica 17 vezes. Essa última investida, porém, foi especial: entre 1o de dezembro de 2008 e 13 de janeiro deste ano, liderou a expedição Deserto de Cristal, a primeira incursão nacional ao interior do continente antártico. Cientista com doutorado no Instituto de Pesquisa Polar Scott da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Simões, de 51 anos, é o primeiro brasileiro a especializar-se em glaciologia, a ciência do gelo em todas as suas formas e seu papel no sistema ambiental



Assim, a composição química da atmosfera daquele período fica preservada. Ao se perfurar os poços no gelo, podemos analisar as impurezas e os gases ali contidos e obter inúmeros relatos ambientais ocorridos ao longo do tempo. Entre outros dados, conseguimos olhar para trás e verificar as atividades vulcânicas da Terra, descobrir fontes terrestres de poeira, comprovar a extensão de mares congelados, investigar atividades biológicas terrestres e marinhas e determinar as variações da temperatura da atmosfera. Por meio desses estudos, por exemplo, os cientistas determinaram, desde o início da Revolução Industrial, um aumento de 36% na concentração de dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveis pelo aquecimento global. As atuais concentrações desse gás são as maiores ao longo dos últimos 800 mil anos.


Qual foi o principal objetivo da expedição Deserto de Cristal?

Fomos à Antártica para, entre outros objetivos, obter o que chamamos de testemunho de gelo. Trata-se de cilindros que têm entre 5 e 10 centímetros de diâmetro retirados do manto de gelo antártico. Conseguimos extrair um testemunho de 95 metros de profundidade que revela a história da precipitação química da atmosfera dos últimos 250 anos. Com isso, podemos entender melhor os processos de mudanças globais no clima.

O que esses indícios de gelo antigo revelam?

Muita coisa. Eles nos contam o que aconteceu na atmosfera terrestre ao longo das últimas centenas ou milhares de anos. Os testemunhos são retirados de geleiras e mantos de gelo formados pela neve que se acumulou em camadas horizontais. Ao cair, a neve carrega consigo inúmeras impurezas presentes na atmosfera. Em seguida, devido à pressão das camadas depositadas posteriormente, a neve se transforma em gelo.

Qual o testemunho mais antigo?

Franceses e italianos extraíram um na Antártica que tem cerca de 800 mil anos. Nos próximos dez anos, o grande desafio é atingir um gelo de 1,5 milhão de anos. No total, foram 44 dias no continente antártico, 16 deles no acampamento avançado, um lugar remoto, a 80 graus de latitude sul.

A Antartica pode também conter indícios dos incêndios florestais comuns no Brasil?
Isso ainda não está claro. No Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, pretendemos detectar e determinar a quantidade de subprodutos da queima da biomassa, como a da Floresta Amazônica, transportados para a Antártica. Esse trabalho começou no primeiro semestre de 2008
Teremos mais parte da entrevista aguardem...

Outro Saara...

No coração do Saara, a água da chuva que caiu há milênios empoça na cratera vulcânica de Waw na Namus. Ventos carregaram as cinzas da última erupção por 20 quilômetros.


Uma rara vista aérea da região líbia do Fezzan, em que antigas sociedades florescem e desaparecem assim como o vaivém das chuvas.
Por Charles BowdenFoto de George Steinmetz
Um vento milenar sopra des-de as profundezas do tempo. O Saara nos impacta como um inferno perene de dunas sob o céu azul. Suas paisagens nos deslumbram, mas nada indica que estamos diante de um dos maiores depósitos de registros geológicos da Terra. O passado sobrevive ali e nos fala através da areia, das pedras, do calor e dos ventos secos. Sussurra em nossos ouvidos uma história de mudanças climáticas ocorridas aos trancos e solavancos, bem como do avanço e do recuo da humanidade. David Mattingly lidera um time de pesquisadores do Projeto sobre Migrações no Deserto, cujo trabalho nos remete à pré-história. São viajantes do tempo a navegar pelo Saara em busca de vestígios dos nossos antepassados. Eles conquistam dunas com mais de 30 metros de altura e abrem novos caminhos para se apreciar esse deserto. No sudoeste da Líbia, uma região conhecida com Fezzan é o coração palpitante do Saara, um lugar inacessível, repleto de mares de areia, wadis (leitos de rios intermitentes no norte da África), montanhas, platôs, oásis e mistério. Entre 500 a.C. e 500 d.C., estima-se que cerca de 100 mil pessoas viveram da terra ali, em uma área que costuma receber só alguns milímetros de chuva por ano - quando recebe. "É muita gente para os padrões da paisagem hiperárida do Saara central", diz Mattingly. Arqueólogo da Universidade de Leicester, ele tornou-se um escravo do deserto. "Trabalho na Líbia há 30 anos e desde logo fiquei maravilhado com as paisagens." Muitos partilharam da mesma sina. As pessoas ficam viciadas na luz brilhante e nos horizontes limpos. Onde muitos veem um vazio sem fim, outros enxergam a claridade. Se recuarmos até o período entre 1822 e 1825, flagraremos o explorador escocês Hugh Clapperton mergulhado no deserto a sudoeste da Líbia. Em 7 de novembro de 1824, atravessando a secura do chão, Clapperton topa com uma escrava abandonada "para perecer no deserto hoje, com uma cabeça inchada - incapaz de andar - sem reações". Ele encontra um dos criados do amo encolhido ao lado da mulher, "esperando ali pela morte dela, não para enterrá-la, mas para se apoderar dos escassos andrajos que a cobriam". Ela não consegue montar um camelo, está fraca demais. O explorador acha que não deve se demorar ali para não morrer também. O vento é frio, ele observa. E toca em frente. Esse é o Saara dos horrores. Um mar ressecado de areia e pedra, infestado de escorpiões, em que víboras serpenteiam sob um sol inclemente. A Líbia é grande, do tamanho de Itália, França, Espanha e Alemanha juntas. E quase todos os seus 6 milhões de habitantes vivem na costa do Mediterrâneo. Para entender-se a região, devemos dar as costas ao mar e mirar o sul. Noventa e cinco por cento da Líbia são desertos, 20% são dunas e nenhum rio perene passa por ali. O Saara líbio detém o recorde mundial de calor (57,8ºC) e é capaz de gelar os ossos de uma pessoa em uma noite de inverno. Ibrahim al-Koni, o maior romancista do país, foi criado como tuaregue no Fezzan. Em seu livro A Pedra Que Sangra, ele cita uma canção sufi:
O deserto é um verdadeiro tesouro para quem busca refúgio dos homens, da maldade dos homens. Nele há contentamento, nele há morte e tudo que procuras. O Fezzan revela milhares de anos de uma luta da vida contra a mudança, de seres humanos adaptando-se ao meio hostil. É uma máquina do tempo que faz o passado esbofetear nossa cara. Nós, modernos, admitimos com relutância que o passado é a história de mudanças climáticas, de grandes migrações, de ascensão e queda de nações. Mesmo assim, agimos como se nosso presente fosse o capítulo final. No Saara, porém, qualquer visitante se confronta com uma história longa demais a nos lembrar de que o atual capítulo é tênue e frágil.
As investigações de Mattingly levam-no até o Mar de Areia de Ubari, onde, por incrível que pareça, há muitos laguinhos da cor de pedras preciosas, alguns púrpura, outros alaranjados, por causa dos minerais e das algas. Eles são a lembrança quase desidratada de uma época anterior, quando o lençol freático corria mais próximo da superfície que hoje. É difícil imaginar, mas um lago do tamanho da Inglaterra, o Megafezzan, existiu ali há cerca de 200 mil anos, quando chuvas eram abundantes e, como provam os antigos canais, os rios corriam pelo centro do deserto. As mudanças climáticas têm ocorrido feito um interruptor que liga e desliga no Saara. No tempo seco, os lagos minguavam e a vegetação reduzia-se a nichos. Então, quando dias mais úmidos retornavam, os lagos se enchiam e partes do Saara viravam savana. Comunidades humanas pulsaram por lá como uma explosão de plantas depois de uma chuva rara. Nas eras úmidas, prosperavam. Nas secas, encolhiam ou se extinguiam. Com base em imagens de radar, Kevin White e Nick Drake, membros da equipe do Projeto de Migrações, mapearam a localização de resíduos minerais de antigos lagos e nascentes. Depois, os paleoantropólogos Robert Foley e Marta Mirazón Lahr descobriram artefatos de pedra, pontas de flecha, indícios de fogueiras, túmulos. Os mais antigos seres humanos na região eram caçadores e coletores que viviam em uma savana há cerca de 130 mil anos. Esse povo foi sumindo à medida que as chuvas começaram a rarear, 70 mil anos atrás. Quando as chuvas voltaram, as pessoas também retornaram. Riscadas nas pedras do deserto estão as memórias de um Saara mais úmido, quando criaturas dependentes de água, como leões, elefantes e rinocerontes, viviam ali. Algo curioso ocorreu quando a mais recente fase úmida terminou. Há cerca de 5 mil anos, as chuvas cessaram de novo, os lagos desapareceram e o deserto venceu. Dessa vez as pessoas permaneceram. A arte rupestre registra a transição da caça ao pastoreio. Na sequência surgiu uma sociedade que começaria a construir cidades e daria início à agricultura: a civilização garamante. Os garamantes floresceram ali em um clima bem parecido com o do Saara de hoje. Estudiosos achavam que eram nômades do deserto. Mas escavações no sítio em que ficava Garama, sua capital - e onde hoje se ergue Jarmah -, além de sondagens no terreno feitas pela equipe de Mattingly, revelaram que era um povo sedentário, que vivia de agricultura de oásis. Eles construíram um sofisticado sistema de irrigação que lhes permitia plantar trigo, cevada, sorgo, tâmara e azeitona. Canais subterrâneos - chamados de foggaras - levavam a água dos lençóis freáticos aos campos. Quase mil quilômetros desses canais ainda podem ser detectados. O sistema funcionou bem por centenas de anos. Até que a água "fóssil", armazenada nas épocas chuvosas, começou a desaparecer. E a civilização teve fim. O Saara parece uma barreira à primeira vista, dividindo a África em dois pedaços. Mas, para os seres humanos que viveram na Líbia por milhares de anos, era um corredor. Ouro, marfim e escravos chegavam ao norte vindos da África subsaariana. Azeite de oliva, vinho, vidros e outros produtos do Mediterrâneo rumavam para o sul. O comércio criou uma imagem duradoura em nossa cabeça: a caravana trilhando seu caminho por imensas dunas. O corredor do Saara pode ter sido uma das passagens usadas por nossos ancestrais ao deixarem a parte oriental do continente para povoar o resto do mundo. Estudiosos sustentam que os primeiros seres humanos se expandiram para além da África subsaariana rumo à Eurásia, migrando tanto ao longo do rio Nilo quanto através do Sinai ou do mar Vermelho. Agora outra hipótese está sendo explorada: a de que o Fezzan pode ter feito parte de um longo corredor migratório por onde alguns seres humanos modernos chegaram ao litoral do Mediterrâneo e, a partir dali, cruzaram o Sinai. Talvez ao cruzar esse mar de areia, nossos ancestrais tenham caminhado pelo Great Rift Valley, ou, literalmente, o "Vale da Grande Fenda", uma depressão de aproximadamente 6 mil quilômetros de extensão que rasga o território de vários países africanos. E o resultado é sermos quem somos hoje. Mattingly diz que gosta da arqueologia porque "ela traz lições aos dias de hoje". Mil e quinhentos anos após o declínio dos garamantes, o governo líbio está construindo o "Grande Rio Feito pelo Homem", uma série de imensos aquedutos que fará minar antigas reservas de água subterrânea existentes debaixo do Saara, água que será usada para fazer o deserto brotar. A água que está sendo bombada se depositou ali dezenas de milhares de anos atrás, em tempos bem mais úmidos. O lençol d’água já declina por causa do bombeamento. O projeto tem uma vida estimada de apenas 50 ou 100 anos, um piscar de olhos nessa região. O último capítulo do Fezzan ainda está por ser escrito.

Nota do professor: Nada melhor que viajar e conhecer cada pedaçinho do mundo...quem diria que o Saara podeiria dar esse espetáculo...

National Goegraphic Brasil Out/2009

A caminho de Copenhague

Tasso Azevedo, consultor do ministério do Meio Ambiente em questões de clima e florestas, está definindo os últimos detalhes da pauta que a comissão brasileira defenderá na 15ª Confederação das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a COP-15), que acontece em dezembro na capital da Dinamarca.
Por Afonso Capelas Jr. e Matthew ShirtsFoto de Luciana de Francesco
Formado em engenharia florestal - profissão incomum no Brasil, mas que tem despertado o interesse de muitos jovens estudantes -, Tasso Azevedo foi, até abril, diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), criado pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Hoje, ele é consultor do ministério em questões de clima e florestas. Jovem (37 anos) e determinado, Azevedo acredita que, assim como a internet, sua profissão é um universo de possibilidades a ser ainda explorado. Por isso, além do envolvimento com a posição que o Brasil levará à 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a COP-15), em Copenhague, ele se dedica a estimular o uso das redes sociais da web em benefício do monitoramento voluntário das florestas brasileiras, a fim de gerar conhecimento coletivo e efetiva proteção. Envolvido dia e noite em viagens e reuniões para definir os últimos detalhes da pauta que a comissão brasileira defenderá, em dezembro, na capital da Dinamarca, Azevedo acredita que no encontro "se discutirá o maior desafio da humanidade hoje, cujo interesse é comum a todos nós e de onde esperamos uma decisão importantíssima. Quero ajudar o Brasil a ser, em Copenhague, um dos protagonistas de um acordo".
Qual o desafio para as nações no encontro de Copenhague?
Conseguir um acordo que coloque o mundo num caminho ousado de redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) que permita evitarmos que a temperatura média do planeta suba mais de 2ºC no século 21. Não é fácil. A menos de 100 dias de Copenhague, ainda estamos longe de um compromisso da magnitude necessária. O mundo tem de se reinventar, transformar seu modo de vida de forma mais profunda, intensa e rápida que em qualquer outro momento da história, mesmo quando comparado à Revolução Industrial.
Há um consenso em que a biodiversidade do planeta Terra não pode suportar um aumento de 2ºC de temperatura média?
Essa convicção foi se consolidando mundo afora a cada relatório divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês). Até recentemente o Brasil não expressava sua posição sobre esse aumento da temperatura. Em junho, após vários debates internos, assumiu pela primeira vez, em uma submissão à Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - um documento que o país apresenta para expressar suas posições antes das grandes negociações internacionais -, que nós devemos garantir que a temperatura não supere 2ºC adicionais sob o risco de termos sérias ameaças à vida na Terra. O Brasil foi chave para convencer chineses e indianos a assumirem tal posição, o que possibilitou que o grupo das 17 maiores economias do mundo assinasse a Carta de Aquila, na qual expressam a necessidade de estabelecer metas globais de redução das emissões de GEE para não ultrapassarmos os 2ºC. O Brasil propôs também que isso seja monitorado para que não passemos de 0,2ºC a cada dez anos e, assim, seja possível adaptar o curso de acordo com a performance global.
Quais as consequências caso o limite de 2ºC seja ultrapassado?
Hoje se diz que 2ºC é um aumento de temperatura perigoso, mas é o máximo aceitável. A partir daí os cenários mostram um custo e um risco muito altos para a humanidade se adaptar. Isso está baseado em simulações que estão sendo aperfeiçoadas, no Brasil, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os modelos climáticos com base nos 2ºC de temperatura mostram situações bem difíceis - acima disso, será ainda pior. É o caso da Amazônia: se chegarmos a 3ºC de aumento da temperatura do planeta, podemos ter um processo de seca e de mudança da estação chuvosa que vai alterar completamente a característica física de metade da área de floresta. E isso é um desastre, pois afetará o regime de chuvas no Brasil, com consequências graves na geração de energia e na produção agrícola e pecuária, apenas para citar alguns efeitos. Outro ponto que já chama a atenção é o limite de concentração de carbono na atmosfera, de 450 partes por milhão (ppm de partículas de GEE). Se ficássemos abaixo disso, por volta de 380 ppm, seria melhor. Haveria uma possibilidade maior de a temperatura subir menos de 2ºC.
Será complicado reduzir as emissões a esse nível de tolerância?
Muito. Essa redução depende não só das emissões mas também do chamado "decaimento", o período em que o carbono e outras moléculas equivalentes demoram para desaparecer da atmosfera. Em torno disso há grande polêmica. O efeito do metano é 21 vezes maior que o do carbono, mas parece que seu decaimento é bem mais rápido. Por outro lado, agora está se dizendo que o carbono não vai ficar 100 anos na atmosfera, e sim mais tempo. São questões complexas. O decaimento é um ponto importante porque está ligado a nossa capacidade de reduzir a concentração de gases se ultrapassarmos 450 ppm. De uma maneira simples, toda a vez que emitimos mais GEE do que o planeta é capaz de absorver, somado ao decaimento desses gases, aumentamos a concentração, que hoje está em cerca de 390 ppm e cresce cerca de 2 a 3 ppm por ano.
Já há algum consenso mundial sobre esses limites de concentração na atmosfera? Existem três números muito falados, oriundos de cenários simulados pelo IPCC. Acima de 510 ppm, os cenários mostram que a chance de o aumento de temperatura ficar abaixo de 2ºC é praticamente nula. Já abaixo de 380 ppm, todos os cenários mostram que a temperatura não cresce mais de 2ºC. Então, 450 ppm - número que representa uma chance de cerca de 60% de ficarmos abaixo de 2ºC de aumento de temperatura - têm sido a referência mais usada pelos países.
E o que precisa ser feito para estabilizar abaixo de 450 ppm?
Segundo o IPCC, deveríamos limitar as emissões de GEE em 1,8 mil GtCO₂e (1 bilhão de toneladas de GEE expresso em CO₂ equivalente) ao longo do século. Isso dá cerca de 18 Gt/ano, só que estamos emitindo quase 45 Gt/ano - e as emissões estão crescendo. Se parássemos de crescer nossas emissões até 2020, ainda assim teríamos emitido quase metade do total que poderíamos emitir no século em apenas 20 anos. Considere que 1 Gt e equivale à emissão de 1 bilhão de carros ao longo de um ano. O aumento das emissões hoje acontece nos países em desenvolvimento, sobretudo nos emergentes, em que as emissões per capta ainda são baixas. O desafio, então, é limitar as emissões promovendo uma economia nova, baseada em baixo carbono. É preciso que os mais de 400 milhões de indianos que vivem abaixo da linha da pobreza e quase não emitem GEE, por exemplo, possam se desenvolver, mas sem aumentar as emissões. Ou seja, precisamos descolar o desenvolvimento das emissões de carbono.
Tudo isso é uma reação do planeta à ação do homem?
A Terra existe há bilhões de anos, ou seja, há muito mais tempo que os seres humanos, e vai continuar ainda por muitos outros bilhões de anos. O que temos a fazer é proteger a biosfera, a vida como a conhecemos. No fundo é uma luta para proteger a nós mesmos, nossos filhos e netos.
O que precisa ser alcançado em Copenhague?
Primeiro, deve-se sacramentar o objetivo de manter a temperatura abaixo de 2ºC para que esse ponto seja uma referência na tomada de decisões. Segundo, precisamos acordar uma espécie de orçamento de emissões, ou seja, definir o quanto podemos emitir até o fim do século, com metas para reduzir sistematicamente o nível de emissões globais. Depois, precisamos dividir a responsabilidade para atingir tais metas globais - os países que sempre emitiram mais devem pagar a maior parte da conta. Por fim, há que se criar meios para pôr em prática as ações para atingir essas metas. Isso inclui mecanismos de controle, obrigações e incentivos tanto para mitigação como para adaptação às mudanças climáticas.
Há resistência a esse tipo de acordo conjunto?
Sim, porque o pensamento comum é o seguinte: se os países desenvolvidos não estão conseguindo reduzir suas emissões, mesmo com todo o poder financeiro, como nós, das nações em desenvolvimento, vamos lidar com a redução no futuro, já que dependemos de tecnologia e de recursos que virão dessas nações ricas? Ou seja, os países desenvolvidos precisam resolver o problema deles, além de apoiar as nações em desenvolvimento a se adaptar. Esse debate é legítimo. Estamos todos no mesmo barco e ele está cheio de furos. Não dá para ficar apenas discutindo quem fez os furos. É preciso arregaçar as mangas, todos, para ajudar a manter o barco na superfície.
Como fica o Brasil nessa questão?
Nós somos um país em transição, com potencial para ser o novo paradigma de desenvolvimento. Nos últimos 15 anos, penamos para estabilizar a economia e estabelecer políticas sociais arrojadas, mas agora precisamos dar um salto maior, que é o da sustentabilidade. As ONGs e as universidades vêm operando nessa agenda há alguns anos. Mais recentemente, porém, empresas e movimentos sociais começaram a cobrar do Brasil uma posição de vanguarda em relação ao clima. O governo tem começado a responder a essas demandas, como fez com a definição do Plano Nacional de Mudanças Climáticas e o estabelecimento de metas para redução do desmatamento na Amazônia. Mas é preciso fazer mais.
Quais deveriam ser as prioridades?
Em primeiro lugar, publicar todo ano as estimativas de emissões do Brasil. Depois, ter uma estratégia para implantar uma economia de baixo carbono. Também é necessário um sistema de governança que inclua uma instituição independente para operar políticas relacionadas às mudanças climáticas. Por último, o país precisa criar um plano de adaptação para as mudanças que vão acontecer pelo efeito das emissões já realizadas.
E o que já está sendo feito?
O Ministério do Meio Ambiente está implementando o sistema de estimativa de emissões do Brasil. Também está em curso o trabalho de tentar definir uma trajetória de emissões do país que incorpore não apenas a redução de emissões de desmatamento mas também as emissões da extração e do refino de petróleo do pré-sal, além do aumento das emissões relacionadas à indústria, ao setor de energia e à agropecuária.
A queda do desmatamento compensa o aumento das emissões nos setores energético e industrial?
Em 1994, ano do qual temos os dados do inventário nacional, as emissões eram de cerca de 1,47 GtCO₂e e devem ter subido cerca de 10% a 20% até 2007. Embora o aumento seja pequeno, ele se explica com a queda do desmatamento, pois os setores de energia e indústria elevaram em mais de 60% suas emissões nesse período. O perfil de nossas emissões, que em 1994 era dividido entre desmatamento, agropecuária e indústria/energia na proporção de 55%, 25% e 20%, respectivamente, deve ir para algo como 40%, 30% e 30%, ou seja, nosso perfil de emissões está aumentando com uma matriz energética mais poluente.
Em que situação o país estará em Copenhague?
Nas negociações, o Brasil tem tido historicamente uma posição confortável no seguinte sentido: ele tem uma emissão per capita relativamente baixa, e é um dos países que mais reduziu suas emissões nos últimos anos, por causa da diminuição do desmatamento. Mesmo não tendo obrigações de redução, nós devemos estabilizar ou reduzir nossas emissões até 2020, num desvio de mais de 60% da trajetória de aumento de emissões prevista para os países em desenvolvimento pelo cenário atual.
Quais seriam as propostas?
Os chineses apresentaram uma proposta de trajetória na qual eles continuam crescendo suas emissões até 2020, quando então passam a estabilizá-las e, a partir de 2030, começam a cair. Na minha opinião, não é o suficiente para o planeta. No Brasil, podemos prever uma curva em que o país atinja um pico de emissões nos próximos anos e, em 2020, retorne aos níveis de emissão de 1990. Seria uma proposta agressiva. Mas não é uma equação fácil de definir, uma vez que teremos também de lidar com a realidade do pré-sal, que deve adicionar pelo menos 100 milhões de toneladas nas emissões apenas na extração e no refino, triplicando os números atuais da Petrobras. As indústrias certamente vão cobrar do governo que um esforço delas na redução das emissões não poderá ser uma mera compensação pelas novas emissões do pré-sal. O marco regulatório do pré-sal deveria destinar uma parte importante dos recursos para o desenvolvimento de novas tecnologias e o estímulo à redução das emissões no setor industrial e à construção de uma economia de baixo carbono.
Como o Brasil pode se colocar na vanguarda do debate em torno de uma economia de baixo carbono?
Se o país não tomar uma posição proativa agora, e anunciar que também vai entrar na rota de redução de emissões, não teremos argumentos para fazer com que a modernização na indústria brasileira seja estimulada, incentivada, subsidiada para transformá-la a tempo em um setor de baixa emissão, e a ponto de torná-la competitiva. O pensamento nacional é de que é melhor estar preparado para essa competição. Mas, para mantermos essa vantagem de modernização e crescimento econômico e depois entrar na trajetória de queda das emissões, será preciso nos mobilizarmos agora.
nota: Temos que ser críticos quando falamos em meio ambiente e política. Sejamos críticos e analíticos.
National Geographic Brasil Out/2009

Nemo...Nemo... Cadê você Nemo???


Peixe-palhaço (Amphiprion percula) e anêmona (Heteractis magnífica), na grande barreira de coral, na Austrália. Ao cair da noite, uma anêmona-do-mar contrai-se e fica parecida com um vaso de argila. Os tentáculos que permanecem expostos são suficientes para fornecer abrigo aos peixes-palhaço residentes, que podem crescer até 7 centímetros. A cor do corpo desta anêmona varia entre laranja, rosa, azul, verde, vermelho e branco.Foto de David Doubilet

Fantástico


Peixe-palhaço (Amphiprion Frenatus), nas Filipinas. Um espécime macho zela por sua ova em crescimento como um jardineiro dedicado, removendo os embriões mortos. Ele oxigena os ovos abanando-os com as nadeiras peitorais.Foto de David Doubilet

Peixe Palhaço Amphiprion chrysopterus


Peixe-palhaço (Amphiprion chrysopterus) e anêmona (Stichodactyla mertensii), em Papua-Nova Guiné. Entranhados para passar a noite no aconchegante refúgio dos tentáculos urticantes da anêmona, peixes-palhaço (Amphiprion chrysopterus) (macho à esquerda; fêmea à direita) protegem-se de predadores, como a garoupa.Foto de David Doubilet

Peixe Palhaço dando seu show


Peixe-palhaço (Premnas biaculeatus) e anêmona (Entacmaea quadricolor), em Papua-Nova Guiné. Branqueada pelas altas temperaturas da água, esta anêmona de pontas bulbosas quase não tem algas que forneçam cor e energia provenientes da fotossíntese. Mesmo estressada, ela sobreviverá e continuará a ser útil a seus peixes-palhaço.Foto de David Doubilet