quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Desafios para mitigar emissões brasileiras de gases do efeito estuf
quarta-feira, 23 de junho de 2010
As lições do abismo

A exploração de petróleo em profundidade oceânica superior a 1 000 metros, chamada de prospecção em águas profundas, ocorre em larga escala há apenas duas décadas. Hoje, 6% do petróleo produzido no mundo provém de poços com essas características e estima-se que essa porcentagem dobre nos próximos vinte anos. Ou, pelo menos, era a essa a previsão até o vazamento no Golfo do México. Embora a plataforma Deepwater Horizon fosse uma das mais avançadas do ponto de vista tecnológico, engenheiros e técnicos não foram capazes de impedir que a explosão inicial se convertesse no pior desastre desse tipo já ocorrido nos Estados Unidos. A falha da válvula de segurança da plataforma e os repetidos fiascos nas tentativas de estancar o vazamento de petróleo mostram que a prospecção em alto-mar é uma empreitada que envolve riscos elevados demais para quem trabalha na operação e também para o ambiente.
Os desdobramentos políticos e legais do desastre do Golfo nos Estados Unidos dão indícios do que pode ocorrer com a exploração submarina de petróleo daqui para a frente. Semanas antes da explosão da Deepwater Horizon, o presidente americano Barack Obama havia proposto a ampliação da prospecção em águas profundas como forma de atender ao aumento crescente da demanda por energia no país, sem depender do fornecimento externo, cuja maior parte está em mãos de figuras indignas de confiança, como o venezuelano Hugo Chávez. Os Estados Unidos são o país que mais consome petróleo – mais de 3 bilhões de litros por dia. Na quinta-feira passada, numa reviravolta, Obama suspendeu a perfuração de 33 poços no Golfo do México e dois no Alasca. Ele também vetou novas permissões de perfuração nos próximos seis meses – a exploração pela Petrobras de dois campos no Golfo do México, Cascade e Chinook, está vetada. A questão em aberto é como foi possível a sequência de erros no acidente do Golfo do México. O governo espera que neste período seja possível estabelecer novos procedimentos de segurança para evitar tragédias desse tipo.
Na sexta-feira, Obama visitou a região do desastre pela segunda vez e assumiu total responsabilidade pela recuperação da área afetada. O discurso penitente não chegou a ser um alívio para o presidente americano. Em pesquisas realizadas na semana passada, 45% dos entrevistados desaprovaram as medidas adotadas. A oposição republicana já chama o desastre do Golfo do México de "o Katrina de Obama". Em 2005, a demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans, também na Louisiana, estraçalhou a imagem do então presidente George W. Bush. Se depender do Congresso dos EUA, as consequências legais que recairão sobre as empresas responsáveis por acidentes que causam vazamentos de petróleo levarão esse tipo de delito a um patamar infinitamente mais alto. As três empresas envolvidas no acidente do Golfo do México – a British Petroleum, que detinha os direitos da exploração do campo, a Transocean, dona da plataforma, e a empreiteira Halliburton – poderão pagar uma multa de 75 milhões de dólares. Na semana passada, os senadores americanos anunciaram que querem propor o aumento da multa para 10 bilhões de dólares.
O Brasil, obrigatoriamente, terá de prestar atenção nas lições do desastre no Golfo do México. O país extrai do oceano 90% do petróleo que produz. São 826 poços marítimos, 200 deles em águas profundas. A exploração e o transporte de petróleo já provocaram vários acidentes no litoral brasileiro. Em 2000, um vazamento na refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, espalhou 1,3 milhão de litros por 50 quilômetros quadrados na Baía de Guanabara. Em 1984, um incêndio causado por vazamento de gás na plataforma de Enchova, na Bacia de Campos, resultou na morte de 37 pessoas. Também na Bacia de Campos, em 2001, a explosão da plataforma P-36 matou onze pessoas. Diz Wilson Iramina, do departamento de engenharia de minas e de petróleo da Universidade de São Paulo: "É preciso que haja bom senso da Agência Nacional de Petróleo, da Petrobras e de todas as operadoras para fixar regras de segurança que evitem ao máximo acidentes como o do Golfo. Um bom início seria que esses órgãos estabelecessem um acordo de responsabilidade para, em caso de acidente, não ficar um empurrando a culpa para o outro".
Os desafios tecnológicos e relativos à segurança se tornarão exponencialmente maiores no Brasil quando começar a exploração comercial do petróleo localizado na camada pré-sal do oceano. Nunca se extraiu petróleo de uma profundidade tão grande. Para chegarem ao reservatório de petróleo, os dutos e as sondas de perfuração precisarão atravessar 2 quilômetros de oceano (média de profundidade da água na Bacia de Santos), 1 quilômetro de rocha (camada pós-sal) e mais 2 quilômetros da camada de sal, até chegar, então, ao pré-sal. A temperatura onde se localiza a camada pré-sal pode atingir 100 graus. O calor, aliado à alta pressão, faz com que as propriedades das rochas se alterem, amolecendo-as. Isso dificulta a perfuração porque, se o poço não for revestido de concreto rapidamente, ele se fechará. A grande vantagem do petróleo do pré-sal é ser do tipo leve, assim como o do Oriente Médio. O petróleo extraído atualmente no Brasil, bem como o da Venezuela, é do tipo pesado, de menor valor de mercado. Prestes a entrar na era do pré-sal, é preciso que o Brasil se posicione também na era pós-vazamento no Golfo do México.
O vazamento de petróleo no mar é um dos mais frequentes – e também um dos piores – desastres ambientais de nossos dias. Na relação das tragédias dos anos 80, o derramamento de óleo no Alasca pelo petroleiro Exxon Valdez é equiparado à explosão do reator nuclear de Chernobyl. O acidente matou 250 000 aves e mamíferos, segundo uma estimativa que não incluiu peixes nem outras criaturas das profundezas. Quando o petróleo se espalha pela superfície da água, 30% dele se evapora naturalmente em dois dias. Nesse meio-tempo, o material restante inicia uma cadeia calamitosa de eventos. Na superfície, a massa negra inibe a fotossíntese dos fitoplânctons, organismos microscópicos que são a base da cadeia alimentar marinha. Quando afunda, vai matando algas, peixes, moluscos e corais até cobrir o leito do oceano com uma camada impermeável. O efeito é igualmente devastador se o óleo atinge áreas de mangue, que são os berçários da vida no mar. Quando o petroleiro Aegean Sea espalhou 72 milhões de litros de petróleo no norte da Espanha, a pesca na costa mais rica em frutos do mar do país ficou suspensa por um ano.
Os estragos, felizmente, não são permanentes. Em dez ou quinze anos, a natureza encarrega-se de restabelecer o equilíbrio ecológico perturbado pelo vazamento. Os primeiros organismos a proliferar são bactérias que vivem da decomposição do petróleo. À medida que esses microrganismos limpam a água, a cadeia alimentar é refeita. Retornam os fitoplânctons, os peixes, as aves e, por fim, os mamíferos, como botos e baleias. Vestígios dos 40 milhões de litros de petróleo derramados pelo acidente do Exxon Valdez no mar do Alasca, em 1989, só podem hoje ser detectados em análises com aparelhos científicos. No fim, a vida triunfou.
Soccer City

O Sonho de Xangai - A metrópole global da China tenta recuperar a glória do passado - desta vez nos próprios termos.

quarta-feira, 16 de junho de 2010
Cores reais - A transformação da Groenlândia
Por Mark JenkinsFoto de James Balog
À primeira vista, a Groenlândia é uma imensidão de brancura ofuscante. No entanto, quando o helicóptero em que estou sobrevoa em baixa altitude a ilha, é impossível deixar de notar as cores. Por quilômetros sem fim, as faixas azuladas da água do degelo acompanham os limites do manto de gelo. Campos esbranquiçados estão agora entremeados de rios sinuosos, entalhados por fendas e salpicados de lagos. Também há o gelo que não parece branco nem azul, mas antes pardo e até preto - escurecido por uma substância conhecida como crioconita. Essas partículas de aparência turva são o principal tema de investigação dos meus quatro companheiros: o fotógrafo James Balog e seu assistente, Adam LeWinter, o geofísico Marco Tedesco e o doutorando Nick Steiner, ambos da faculdade City College, de Nova York.
Balog fotografa o gelo - e a ausência dele. Em 2006, ele fundou o projeto Extreme Ice Survey (EIS, "sondagem extrema do gelo") para "criar uma memória de coisas que estão desaparecendo", diz. O EIS já instalou mais de 35 câmeras automáticas, alimentadas por painéis solares e à prova de nevascas, em geleiras no Alasca, em Montana, na Islândia e na Groenlândia - todas elas captando imagens dia após dia, de 4 mil a 12 mil fotos por ano, como "olhos observando o mundo lá fora para nós", comenta Balog.
Montamos o nosso acampamento no interior, a 70 quilômetros do vilarejo de Ilulissat, na costa oeste da Groenlândia, em um trecho da zona de degelo na qual a remoção das camadas superiores do manto de gelo deixa exposto o chamado "gelo azul". Trata-se de um gelo antigo e de tal modo compactado que grande parte das bolhas de ar - que normalmente refletem a luz e conferem ao gelo a aparência leitosa ou branca - foi eliminada. Com uma quantidade menor dessas bolhas, o gelo absorve a luz da extremidade vermelha do espectro, refletindo a parte azulada. Conforme os efeitos provocados pela luz solar, o gelo azul também pode parecer branco.O acampamento está junto à margem de um imenso lago formado pela água do degelo. Tedesco e Steiner investigam a sua profundidade para comparar essas informações com as sondagens, feitas por satélites, da profundeza de outros lagos supraglaciais na Groenlândia. Toda manhã, eles lançam à água um pequeno barco para a coleta de dados. É um barco em miniatura, controlado por rádio e equipado com sonar, espectrômetro conectado aos notebooks dos cientistas, GPS, termômetro e uma câmera submarina.
Os lagos de degelo da Groenlândia costumam esvaziar de maneira inesperada e rápida. Por isso, Tedesco optou por um barco de pesquisa não tripulado. Certa vez, Balog viu um lago desses esvaziar da noite para o dia. A base de um dreno de geleira - um canal vertical no gelo - se rompeu e deu vazão a toda a água acumulada no lago. Já em 2006, uma equipe de glaciólogos conseguiu registrar a drenagem de um lago supraglacial com 5 mil metros quadrados. Mais de 40 bilhões de litros de água sumiram por um dreno de geleira em apenas 84 minutos, num ritmo mais rápido do que a vazão das cataratas do Niágara.
O lago que Tedesco está estudando tem um canal de escoamento que deve levar a um sôfrego dreno de geleira, que LeWinter e eu decidimos localizar. Equipados com piquetas, parafusos de gelo e cordas, nos pusemos a caminho. Mal havíamos percorrido 400 metros quando topamos com buracos no gelo. Como suas bordas estava todas muito próximas umas das outras, fomos obrigados a saltar por cima deles, de uma borda aguçada para a outra - mais ou menos como brincar de pula-sela sobre lâminas de navalha.
Tentamos ainda uma rota alternativa, seguindo uma crista de gelo paralela ao canal. Dessa vez, avançamos bastante e percorremos alguns quilômetros sobre o manto de gelo. Na caminhada, não conseguimos localizar o dreno de geleira, mas notamos um aspecto intrigante: no início da jornada, os buracos que tivemos de saltar eram circulares e isolados, mas, no trajeto de volta, apenas meio dia depois, o derretimento é tão acelerado que os buracos já estão interligados por córregos de correnteza rápida.
De volta ao acampamento, à noite, descobrimos o que Tedesco e Steiner haviam constatado a respeito do fundo do lago: ele estava todo mosqueado de crioconita, que surge na forma de partículas disseminadas pelo vento sobre o gelo. Ela é composta de poeira mineral recolhida de locais tão distantes quanto os desertos da Ásia Central, de partículas de erupções vulcânicas e de fuligem. Esta, por sua vez, vem de incêndios provocados pelo homem e dos naturais, de motores a diesel e de usinas termelétricas. A crioconita não é um fenômeno novo: em 1870, o explorador ártico Nils A. E. Nordenskiöld descobriu e batizou esse fino sedimento escuro em uma visita ao manto de gelo da Groenlândia. Desde então, as atividades humanas aumentaram muito a geração de crioconita, que agora adquiriu maior importância devido ao aquecimento global.O geofísico groenlandês Carl Egede Bøggild dedicou os últimos 28 anos ao estudo do manto de gelo. Recentemente, ele concentrou suas pesquisas na crioconita. "Mesmo que ela seja composta de menos de 5% de fuligem", comenta ele, "é esta que a torna negra." O tom escuro gradualmente reduz o albedo, a proporção de luz refletida pelo gelo, e isso aumenta a absorção de calor - o que por sua vez intensifica o derretimento.Todos os anos, cai neve nova sobre o manto de gelo, salpicando-o com crioconita. À medida que se consolida, a neve absorve essa poeira. Quando os verões são especialmente quentes, como nos últimos anos, há o derretimento de várias camadas de gelo, liberando quantidades adicionais de crioconita, o que resulta em uma camada mais escura e concentrada dessa substância na superfície. "O que temos é um ciclo vicioso em constante aceleração", diz Bøggild. "É como estender um coberto escuro sobre o gelo."Mesmo durante a nossa breve expedição na Groenlândia, foi possível notar esse efeito. Em apenas uma semana, o derretimento do gelo transformou nosso acampamento em um lodaçal escorregadio. Em algum ponto distante dali, o dreno de geleira que havíamos procurado sugou a água do lago. As câmeras automáticas de Balog captaram todo o processo. "Elas estão registrando o pulso do planeta", comenta ele.Antes do término da expedição, Balog me convence a descer por um dreno de geleira bem ao lado do acampamento - um dos maiores que a equipe do EIS encontrou em suas 11 expedições ao território. Ele é largo o bastante para sugar um trem de carga - e certamente o suficiente para me engolir para sempre. Mesmo assim, não consigo resistir a fazer rapel na bocarra desse abismo, chamado por Balog de "a Fera".Preso a cordas cobertas de gelo, começo a lenta descida. Trinta metros abaixo, no imenso poço, circundado por paredões de gelo azul, fico empapado com os gélidos borrifos. Acima de mim, o céu ártico, muito azul, está emoldurado em pingentes de gelo denteados com a altura de três andares. Lá embaixo, desaparecendo no fundo do abismo glacial, está a cascata trovejante que perfurou esse poço. Natureza bruta.Os cientistas lançaram patinhos de borracha amarelos, esferas com sensores e enormes quantidades de corantes nesses drenos gigantescos com o objetivo de identificar o percurso que fazem e descobrir em que ponto do litoral da Groenlândia eles desembocam. Algumas das esferas e dos traços de corante já foram localizados, mas todos os patinhos sumiram. Embora tentado a descer ainda mais, e continuar a investigar, penso melhor e decido retornar. Depois de 20 minutos pendurado dentro do abismo, subo pela parede, de volta à imensidão azul do Ártico.
National Geographic Brasil - Junho 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
O Monte Santa Helena














