quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Fiscalização do trânsito passa a incluir cerco aos veículos poluidores

por Lucas Tolentino, do MMA 10/10/2013

Resolução do Conama estabelece limites de emissões de gases.
Carros, motos, ônibus e caminhões que circulam em território nacional terão de obedecer aos limites de poluentes impostos pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Os órgãos de trânsito do país passarão a seguir procedimentos de fiscalização de emissões de gases de escapamento de veículos automotores. As normas que farão valer os índices impostos para manter a qualidade do ar foram definidas pela Resolução nº 452, aprovada pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Os infratores estão sujeitos penalidades, que vão desde medidas administrativas a multas.
A medida determina que policiais e agentes cobrem, nas ruas, se os veículos estão cumprindo os limites impostos pela área ambiental, mesmo que não haja programas de inspeção e manutenção no Estado de origem. Pelo Código de Trânsito Brasileiro, os dois conselhos dividem a regulamentação das inspeções dos veículos. O Conama define o controle de emissão de gases poluentes e de ruídos e o Contran estabelece questões de segurança.
A diretora de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Letícia Carvalho, salienta a importância da integração de ações dos dois colegiados. “A edição da Resolução nº 452 do Contran é de grande importância para as estratégias de melhoria da qualidade do ar nas grandes cidades brasileiras”, afirma. “Agora, nacionalmente, todos os proprietários terão mais incentivos para promover a boa manutenção dos veículos, pois estarão sujeitos à fiscalização dos órgãos de trânsito em todo o país”.
Determinações
Os novos limites de emissão de poluentes para todos os veículos – leves, pesados e motocicletas – em circulação no país foram definidos pela Resolução nº 418, de 2009, do Conama. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estabeleceu os procedimentos de inspeção, com a Instrução Normativa nº 6, de 2010. Essas são as determinações que os governos estaduais devem aplicar nos Programas de Inspeção e Manutenção de Veículos em Uso, Programas I/M.
Nas duas grandes metrópoles brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, onde há Programa de Inspeção e Manutenção Veicular, havia a preocupação com a emissão de poluentes de veículos vindos de outras regiões, onde não há tais programas, e que circulam intensamente em suas ruas. Com a edição da resolução do Contran, as autoridades dispõem de importante instrumento para exigir a correta manutenção de todos os veículos, exigindo que cada um deles não emita nada além do que o permitido na legislação ambiental.
Veja aqui a íntegra da Resolução nº 452 do Contran, de 26 de setembro de 2013
Veja aqui a íntegra da Resolução nº 418 do Conama, de 25 de novembro de 2009
* Publicado originalmente no site Ministério do Meio Ambiente.
(Ministério do Meio Ambiente) 

Brasil é sexto maior emissor de gases poluentes do mundo

Relatório divulgado na COP17, em Durban, apontou que o Brasil liberou mais de 1.100 megatoneladas de CO2e na atmosfera para a produção de energia, nos últimos dois anos

por Débora Spitzcovsky, do Planeta Sustentável 05/12/2011
Cenário dos anos industriais, as chaminés na usina elétrica Xinglongzhuang marcam um dos primeiro esforços da China para geração de energia elétrica dos resíduos da mineração do carvão

Às vésperas do início do Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, a Maplecroft, empresa da Grã-Bretanha especializada em análise de risco, divulgou relatório na COP17 - 17ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU para as Mudanças Climáticas que avalia os países que mais liberam gases poluentes na atmosfera para a produção de energia.
O Brasil ficou em sexto lugar no ranking dos mais emissores do setor, por liberar, entre 2009 e 2010, cerca de 1.144 megatoneladas de CO2e - medida que leva em conta não só a liberação de dióxido de carbono na atmosfera, mas também a emissão de outros gases aprisionadores de calor, como metano e dióxido nitroso - para produção energética.
De acordo com o relatório, ao lado das outras nove nações que aparecem nas primeiras posições do ranking, o Brasil é atualmente responsável por dois terços das emissões globais de gases causadores do efeito estufa do setor de energia.
A primeira posição da lista dos mais emissores do planeta ficou com a China, que nos últimos dois anos liberou 9.441 megatoneladas de CO2e na atmosfera, superando os EUA, que ocupam o segundo lugar do ranking, com 6.539 megatoneladas de CO2e, sendo o país desenvolvido que mais polui no setor energético.Em seguida aparecem:
- Índia, com 2.272,45 megatoneladas de CO2e;
- Rússia, com 1.963 megatoneladas de CO2e e
- Japão, com 1.203 megatoneladas de CO2e.
Atrás do Brasil ficaram Alemanha, Canadá, México e Irã, respectivamente. Ao todo, o relatório da Maplecroft analisou os índices de emissões de gases poluentes, no setor energético, de 176 países do mundo. Os outros 166 avaliados são responsáveis, apenas, por um terço da poluição gerada pela produção de energia.
National Geographic Brasil 05/12/2011

Degelo do Ártico é o maior da história

Três institutos de pesquisa apontaram medições que revelam a diminuição da camada de gelo no Ártico

por Por Guilherme Lorenzetti 24/11/2009
Com o derretimento das geleiras, ursos polares estão com dificuldade de encontrar alimento
A camada de gelo sobre o Oceano Ártico chegou ao nível mais baixo já registrado, segundo três institutos de pesquisa.
Pesquisadores da Universidade de Bremen na Alemanha afirmaram que a medição, feita em oito de setembro deste ano, superou a análise feita em 2007, quando foi registrada uma área de 4,13 milhões de km² coberta de gelo. Nas últimas pesquisas a área detectada foi de 4,6 milhões de km².
A Agência Espacial Europeia (ESA), declarou que nos últimos cinco anos foi observada a extensão de gelo mais baixa desde que começou a medição com satélites nos anos 70.
O Centro Nacional de Dados da Neve e do Gelo (NSIDC) dos Estados Unidos, outro instituto que observou o fenômeno, anunciou que este ano o nível de degelo está em um tipo de empate técnico com 2007. Essa medição começou a ser feita em 1979.
Os especialistas chegaram à conclusão de que o gelo marinho está desaparecendo de uma maneira mais rápida do que se previa. A diminuição da quantidade de gelo já atingiu níveis que eram previstos para daqui a três décadas, segundo o relatório do Painel Climático da ONU, elaborado há quatro anos.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou que o ano de 2010 foi o mais quente da história, com um aumento de 0,55 °C. A primeira década do século 21 também foi considerada a mais quente da história, divulgou a OMM na Conferência do Clima, realizada em dezembro. Essas medições têm como base um período de cerca de 150 anos.
Além de ter impactos negativos no clima, o degelo também dificulta a vida dos ursos polares da região, pois os obriga a nadar maiores distâncias para encontrar alimento e outras placas de gelo. Um estudo feito pela entidade ambiental WWF (World Wildlife Fund), divulgado em julho, monitorou 68 ursas de 2004 a 2009. Nesse período, foram registradas 50 ocasiões em que os animais tiveram que nadar 48 quilômetros ou mais. O maior trajeto registrado foi de 685 quilômetros, que durou quase 13 dias.
National Geographic Brasil Novembro 2009

Desafios para mitigar emissões brasileiras de gases do efeito estuf

Para Emílio Lèbre La Rovere, co-coordenador do GT3 do primeiro Relatório de Avaliação Nacional, os objetivos de redução de emissões que o governo brasileiro assumiu para 2020 podem ser alcançados

por Débora Spitzcovsky
Segundo Emílio Lèbre La Rovere, um dos coordenadores do Grupo de Trabalho 3 do primeiro Relatório de Avaliação Nacional, o desmatamento deixou de ser a principal fonte de CO2 no Brasil. Para ele é preciso investir na mitigação das emissões nos setores da agropecuária e da energia.

Lançado nesta segunda-feira (09 de setembro), o primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1), que avalia a situação brasileira no cenário dasmudanças climáticas, dedicou um Grupo de Trabalho, exclusivamente, para a questão damitigação das emissões de gases do efeito estufa.
Co-coordenado pelo engenheiroEmílio Lèbre La Rovere, junto com Mercedes Bustamante, do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), o GT3 conclui que “é viável alcançar os objetivos voluntários de redução de emissões que o governo brasileiro assumiu para 2020. No entanto, caso não haja novas políticas e medidas de mitigação, a tendência é que as emissões brasileiras voltem a aumentar após 2020, podendo chegar a 2,5 bilhões de toneladas de CO2 equivalente (CO2e), por ano, em 2030”.
Emílio Lèbre La Rovere - Foto: Divulgação/USP
Conheça os motivos da queda e de um possível aumento futuro de emissões no Brasil, na entrevista exclusiva que o especialista La Rovere, coordenador do Centro Clima da COPPE/UFRJ, concedeu ao Planeta Sustentável.
O relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) aponta que o Brasil está vulnerável a uma série de impactos causados pelas mudanças climáticas decorrentes do excesso de emissões. Como está a situação brasileira em termos de mitigação desses gases do efeito estufa? O Grupo de Trabalho 3 revisou os principais estudos feitos no campo da mitigação e concluiu que, ao que tudo indica, será possível alcançar os objetivos voluntários de redução de emissões que o governo brasileiro assumiu para 2020 na Convenção do Clima.
No ano de 2005, o Brasil emitia mais de 2,2 bilhões de toneladas de CO2e. Em 2010, esse número caiu mais de 35%, graças ao sucesso no combate ao desmatamento. Os números mostram, portanto, que nesse momento o Brasil vai bem e deve alcançar seu objetivo de reduzir entre 36 e 39% suas emissões projetadas até 2020. Desde que, claro, continue tendo sucesso no combate ao desmatamento. Ao que parece, o número para 2013 foi de ligeiro aumento com relação a 2012, mas mesmo assim ainda está muito abaixo dos registros de 2005.
E após 2020, qual será a situação brasileira?
Os cenários apresentados no relatório demonstram que, caso não haja novas políticas e medidas de mitigação, a tendência é que as emissões brasileiras voltem a aumentar após 2020, podendo chegar a 2,5 bilhões de toneladas de CO2e, por ano, em 2030 – ou seja, apresentando nível superior ao de 2005. Isso porque, mesmo que o Brasil consiga êxito no combate ao desmatamento ilegal, ele já vai ter sido reduzido a um patamar bem baixo e as emissões por queima de combustível fóssil vão começar a pesar bem mais.
Se, como se espera, acontecer o acordo internacional para que os países combatam de forma mais eficaz oaquecimento global, o Brasil terá pela frente o mesmo dilema que as nações de economia mais avançada já enfrentam: como inventar desenvolvimento econômico com baixa emissão de carbono? A queda do desmatamento que o país promove atualmente não tem forte implicação sobre a economia. Essas atividades que estão sendo contidas representam muito pouco do PIB do Brasil. Quando se trata de geração e consumo de energia nos transportes e na indústria o desafio é muito maior, porque impacta mais facilmente a economia.
Que prazo o Brasil tem para começar a adotar essas novas políticas públicas de mitigação – focadas em questões que vão além do desmatamento – para conseguir reverter a tendência de aumento de emissões apontada pelo relatório após 2020?
Essas novas medidas já deveriam estar sendo feitas, principalmente porque os números mostram que, em 2010, o desmatamento já deixou de ser a principal fonte de emissão brasileira. Temos dois setores-chave para investir em mitigação a partir de agora.
O primeiro é o da agropecuária, que é muito importante e já recebe mais atenção do governo. O Ministério da Agricultura até lançou o Plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que tem auxílio técnico da Embrapa e investe em medidas como plantio direto, sistemas de integração entre lavoura e pecuária e uso mais intensivo do solo.
O outro setor é o da energia, que precisa de mais atenção. O relatório mostra que as energias renováveis e a eficiência energética dão plenas condições para o Brasil, que é rico em recursos naturais, ser líder no campo do desenvolvimento com baixa emissão de carbono. Mas, para isso, é preciso incentivo e investimento em tecnologia limpa. Veículos mais eficientes, expansão dos metrôs e das hidrovias, soluções para fazer hidrelétricas mais sustentáveis na Amazônia, incentivo ao etanol e à energia eólica, investimento no biocombustível de segunda geração, feito do bagaço da cana-de-açúcar e da própria celulose, são algumas das medidas que podem ser tomadas, aliadas a uma política de limitação de emissões do setor energético.
Uma das conclusões do relatório é que o regime de chuvas no Brasil terá grande variação, o que afeta diretamente as hidrelétricas, que são a principal fonte de energia limpa da nossa matriz. As termoelétricas são apresentadas pelo governo como uma solução em curto prazo. Nesse cenário, como reduzir as emissões do setor energético?
Existem dois grandes caminhos para brecar essas emissões. O primeiro é uma taxa sobre o carbono, que essencialmente significa aumentar o preço dos combustíveis fósseis de forma proporcional à quantidade de CO2 que emitem quando são queimados. Ao ficarem mais caros, a população reduz o consumo e o mercado busca substitutos para esses combustíveis.
A segunda alternativa é constituir um sistema de cotas de emissões, principalmente para as grandes indústrias, que teria que ser respeitado. Se uma indústria percebesse que ela iria ultrapassar sua cota, poderia eventualmente comprar uma cota de outra indústria que tivesse folga na sua meta. A questão é que existe muita coisa que pode ser feita. O importante agora é fazer.
Quais são as suas expectativas agora que o relatório do PBMC foi lançado?
Uma das conclusões finais do relatório é que não adianta só o Brasil fazer esforço para reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. Todos os países devem se mexer. Sendo assim, não acredito que há perspectivas de que algo aconteça ainda nesse ano por causa do lançamento do relatório, mas há sim perspectivas de que as economias caminhem cada vez mais na direção da mitigação de emissões, como já estão fazendo.
No contexto internacional, acredito que evoluímos nos últimos anos na questão das mudanças do clima. Independente dos impasses que continuam nas negociações diplomáticas, há um movimento significativo das grandes potências, como EUA e China, que pode gerar uma importante corrida tecnológica. Cria-se um interesse empresarial em sair na frente no que tange à inovação, para ter vantagem competitiva depois, e o Brasil tem posição interessante nessa disputa por liderança. Se nos mexermos, podemos ter papel importante nesse movimento internacional.
Em linhas gerais, acredito que o lançamento desse relatório nacional e do documento do IPCC, aliado à melhora da economia nacional e internacional, nos dão condições de colocar o tema das mudanças climáticas com maior prioridade na agenda a partir do ano que vem.
National Geographic Brasil 11/09/2013

quarta-feira, 23 de junho de 2010

As lições do abismo

A extração de petróleo no mar nunca mais será a mesma, apesar do aparente sucesso da última e desesperada tentativa de deter o vazamento no Golfo do México. E isso vale também para o pré-sal brasileiro


A exploração de petróleo no fundo do mar nunca mais será a mesma depois do desastre na plataforma de extração Deepwater Horizon, no Golfo do México. Desde a explosão inicial, no dia 20 de abril, o mundo se viu diante de uma situação inédita: um vazamento submarino sem solução. Tudo parecia dar errado com a Deepwater Horizon, situada a 60 quilômetros da costa do estado americano da Louisiana. Primeiro, a válvula que deveria controlar o fluxo de petróleo falhou, causando a explosão e o rompimento das tubulações no solo do oceano. Todas as tentativas de conter o vazamento fracassaram. Experimentou-se tapar as rachaduras nos canos com a ajuda de robôs submarinos. Não funcionou. Depois, instalou-se uma cúpula de contenção para sugar o petróleo que escapava dos canos. Também não deu certo. Só na madrugada de sexta-feira passada se conseguiu conter a sangria de petróleo no oceano, com uma técnica chamada top kill, que consiste em introduzir um tipo de lama especial nas tubulações (veja o quadro). Mesmo assim, seria preciso esperar até domingo para ter certeza do sucesso dessa última e desesperada tentativa. O saldo da tragédia até agora foram o vazamento de 148 milhões de litros de petróleo, quantidade equivalente a um terço do consumo diário do Brasil, e uma séria questão para o futuro: como mudar as operações para tirar petróleo do fundo do mar sob a luz das lições científicas, empresariais, legais, políticas e ambientais extraídas do desastre na Deepwater Horizon.
A exploração de petróleo em profundidade oceânica superior a 1 000 metros, chamada de prospecção em águas profundas, ocorre em larga escala há apenas duas décadas. Hoje, 6% do petróleo produzido no mundo provém de poços com essas características e estima-se que essa porcentagem dobre nos próximos vinte anos. Ou, pelo menos, era a essa a previsão até o vazamento no Golfo do México. Embora a plataforma Deepwater Horizon fosse uma das mais avançadas do ponto de vista tecnológico, engenheiros e técnicos não foram capazes de impedir que a explosão inicial se convertesse no pior desastre desse tipo já ocorrido nos Estados Unidos. A falha da válvula de segurança da plataforma e os repetidos fiascos nas tentativas de estancar o vazamento de petróleo mostram que a prospecção em alto-mar é uma empreitada que envolve riscos elevados demais para quem trabalha na operação e também para o ambiente.
Os desdobramentos políticos e legais do desastre do Golfo nos Estados Unidos dão indícios do que pode ocorrer com a exploração submarina de petróleo daqui para a frente. Semanas antes da explosão da Deepwater Horizon, o presidente americano Barack Obama havia proposto a ampliação da prospecção em águas profundas como forma de atender ao aumento crescente da demanda por energia no país, sem depender do fornecimento externo, cuja maior parte está em mãos de figuras indignas de confiança, como o venezuelano Hugo Chávez. Os Estados Unidos são o país que mais consome petróleo – mais de 3 bilhões de litros por dia. Na quinta-feira passada, numa reviravolta, Obama suspendeu a perfuração de 33 poços no Golfo do México e dois no Alasca. Ele também vetou novas permissões de perfuração nos próximos seis meses – a exploração pela Petrobras de dois campos no Golfo do México, Cascade e Chinook, está vetada. A questão em aberto é como foi possível a sequência de erros no acidente do Golfo do México. O governo espera que neste período seja possível estabelecer novos procedimentos de segurança para evitar tragédias desse tipo.
Na sexta-feira, Obama visitou a região do desastre pela segunda vez e assumiu total responsabilidade pela recuperação da área afetada. O discurso penitente não chegou a ser um alívio para o presidente americano. Em pesquisas realizadas na semana passada, 45% dos entrevistados desaprovaram as medidas adotadas. A oposição republicana já chama o desastre do Golfo do México de "o Katrina de Obama". Em 2005, a demora no socorro às vítimas do furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans, também na Louisiana, estraçalhou a imagem do então presidente George W. Bush. Se depender do Congresso dos EUA, as consequências legais que recairão sobre as empresas responsáveis por acidentes que causam vazamentos de petróleo levarão esse tipo de delito a um patamar infinitamente mais alto. As três empresas envolvidas no acidente do Golfo do México – a British Petroleum, que detinha os direitos da exploração do campo, a Transocean, dona da plataforma, e a empreiteira Halliburton – poderão pagar uma multa de 75 milhões de dólares. Na semana passada, os senadores americanos anunciaram que querem propor o aumento da multa para 10 bilhões de dólares.
O Brasil, obrigatoriamente, terá de prestar atenção nas lições do desastre no Golfo do México. O país extrai do oceano 90% do petróleo que produz. São 826 poços marítimos, 200 deles em águas profundas. A exploração e o transporte de petróleo já provocaram vários acidentes no litoral brasileiro. Em 2000, um vazamento na refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, espalhou 1,3 milhão de litros por 50 quilômetros quadrados na Baía de Guanabara. Em 1984, um incêndio causado por vazamento de gás na plataforma de Enchova, na Bacia de Campos, resultou na morte de 37 pessoas. Também na Bacia de Campos, em 2001, a explosão da plataforma P-36 matou onze pessoas. Diz Wilson Iramina, do departamento de engenharia de minas e de petróleo da Universidade de São Paulo: "É preciso que haja bom senso da Agência Nacional de Petróleo, da Petrobras e de todas as operadoras para fixar regras de segurança que evitem ao máximo acidentes como o do Golfo. Um bom início seria que esses órgãos estabelecessem um acordo de responsabilidade para, em caso de acidente, não ficar um empurrando a culpa para o outro".
Os desafios tecnológicos e relativos à segurança se tornarão exponencialmente maiores no Brasil quando começar a exploração comercial do petróleo localizado na camada pré-sal do oceano. Nunca se extraiu petróleo de uma profundidade tão grande. Para chegarem ao reservatório de petróleo, os dutos e as sondas de perfuração precisarão atravessar 2 quilômetros de oceano (média de profundidade da água na Bacia de Santos), 1 quilômetro de rocha (camada pós-sal) e mais 2 quilômetros da camada de sal, até chegar, então, ao pré-sal. A temperatura onde se localiza a camada pré-sal pode atingir 100 graus. O calor, aliado à alta pressão, faz com que as propriedades das rochas se alterem, amolecendo-as. Isso dificulta a perfuração porque, se o poço não for revestido de concreto rapidamente, ele se fechará. A grande vantagem do petróleo do pré-sal é ser do tipo leve, assim como o do Oriente Médio. O petróleo extraído atualmente no Brasil, bem como o da Venezuela, é do tipo pesado, de menor valor de mercado. Prestes a entrar na era do pré-sal, é preciso que o Brasil se posicione também na era pós-vazamento no Golfo do México.
Vitória da natureza
O vazamento de petróleo no mar é um dos mais frequentes – e também um dos piores – desastres ambientais de nossos dias. Na relação das tragédias dos anos 80, o derramamento de óleo no Alasca pelo petroleiro Exxon Valdez é equiparado à explosão do reator nuclear de Chernobyl. O acidente matou 250 000 aves e mamíferos, segundo uma estimativa que não incluiu peixes nem outras criaturas das profundezas. Quando o petróleo se espalha pela superfície da água, 30% dele se evapora naturalmente em dois dias. Nesse meio-tempo, o material restante inicia uma cadeia calamitosa de eventos. Na superfície, a massa negra inibe a fotossíntese dos fitoplânctons, organismos microscópicos que são a base da cadeia alimentar marinha. Quando afunda, vai matando algas, peixes, moluscos e corais até cobrir o leito do oceano com uma camada impermeável. O efeito é igualmente devastador se o óleo atinge áreas de mangue, que são os berçários da vida no mar. Quando o petroleiro Aegean Sea espalhou 72 milhões de litros de petróleo no norte da Espanha, a pesca na costa mais rica em frutos do mar do país ficou suspensa por um ano.
Os estragos, felizmente, não são permanentes. Em dez ou quinze anos, a natureza encarrega-se de restabelecer o equilíbrio ecológico perturbado pelo vazamento. Os primeiros organismos a proliferar são bactérias que vivem da decomposição do petróleo. À medida que esses microrganismos limpam a água, a cadeia alimentar é refeita. Retornam os fitoplânctons, os peixes, as aves e, por fim, os mamíferos, como botos e baleias. Vestígios dos 40 milhões de litros de petróleo derramados pelo acidente do Exxon Valdez no mar do Alasca, em 1989, só podem hoje ser detectados em análises com aparelhos científicos. No fim, a vida triunfou.
REVISTA VEJA 02/06/2010

World Cup 2010 In South Africa

UMA HOMENAGEM AO PAÍS SEDE DA COPA DO MUNDO 2010 ÁFRICA DO SUL



















AGORA VAMOS VER A VERDADEIRA IMAGEM QUE AS CAMERAS NÃO MOSTRAM DURANTE A COPA DO MUNDO, A VERDADEIRA ÁFRICA QUE O MUNDO NÃO MOSTRA, OU MELHOR NÃO VENDE...



Soccer City


O novo estádio de Johanesburgo, para 94 mil espectadores, inspirado no formato de uma tradicional vasilha africana, destaca-se no perfil da cidade. Com os olhos do mundo postos no anfitrião da Copa do Mundo, os sul-africanos querem causar excelente impressão: o presidente Zuma considera 2010 o ano mais crítico desde 1994, quando acabou o apartheid.Foto de James Nachtwey

O Sonho de Xangai - A metrópole global da China tenta recuperar a glória do passado - desta vez nos próprios termos.


O World Financial Center com seus 10 andares, o prédio mais alto da China, a Jin Mao Tower e a Oriental Pearl TV Tower são marcos da ambição da cidade
O mundo secreto do antigo abrigo antibombas de Xangai parece um universo paralelo. Lá em cima, na rua ensolarada, operários migrantes devoram marmitas de arroz e tofu enquanto funcionários de escritório vestindo impecáveis camisas brancas passam diante da pequena placa na calçada. No recesso sombrio, a jovem desce por uma escada até o lugar que ela conhece apenas como "0093".
Depois de passar pelas portas de metal, a jovem de 22 anos - Sheng Jiahui, mais conhecida pelo apelido de "Sammy" - embrenha-se por corredores. Em seu perpétuo crepúsculo, o 0093 ainda evoca a claustrofobia da guerra e da revolução comunista que pôs fim ao apogeu esfuziante de Xangai, quando a mescla das culturas ocidental e oriental fez dessa cidade a Paris do Oriente.A porta abre-se e uma explosiva rajada de guitarra elétrica invade o corredor. Na pequena sala, sob um cartaz do lendário Jimi Hendrix, quatro garotas xangainesas - que formam com Sammy uma banda de punk rock, a Black Luna - começam a ensaiar. Esse é um giro curioso da história: o abrigo antibomba, antes símbolo de uma sociedade ferida e temerosa, tornou-se incubadora dos novos músicos de Xangai. O local de ensaio no 0093 já prestou bons serviços para mais de uma centena de bandas, revigorando uma cultura que hoje, como no passado, embaralha as fronteiras entre o Oriente e o Ocidente.Sammy tira o blusão enquanto as outras continuam a ensaiar. Orange, de 20 anos, martela a bateria; Juice, de 23, toca os acordes com a mesma velocidade do novo trem Maglev de Xangai. Sammy começa a cantar e seu cabelo curto sacode para cima e para baixo em ritmo acelerado. Filha de uma cantora de ópera, ela está dando novo rumo ao talento musical da família. "Somos aves recém-nascidas, mas temos sonhos", berra. "O mundo todo vai ouvir a gente cantar."Toda a cidade tem seu ritmo próprio, uma pulsação que a leva adiante. Em Xangai, é fácil perder-se em meio à incessante percussão de britadeiras e bate-estacas, tratores e guindastes de construção. A proliferação de arranha-céus e canteiros de obras faz parte da metamorfose pela qual está passando Xangai para ser a anfitriã da Expo 2010, a versão contemporânea da Feira Mundial, que será realizada de maio a outubro. Todavia, a ascensão da única metrópole chinesa de fato global está sendo impulsionada não só pelas máquinas mas sobretudo por uma cultura urbana que segue a própria batida - acolhendo o novo e o estrangeiro ao mesmo tempo que busca recuperar sua glória passada.Os nativos de Xangai formam uma tribo urbana distinta do restante da China pela língua, pelos costumes, pela arquitetura, pela culinária e pelas atitudes. A cultura local, com frequência chamada de haipai (estilo de Xangai), originou-se da história peculiar da cidade como um ponto de reunião de mercadores estrangeiros e migrantes chineses. "Para os estrangeiros, Xangai é parte da China ‘misteriosa’", explica o comediante local Zhou Libo. "Mas, para os outros chineses, Xangai faz parte do mundo externo."Xangai, ao contrário da Pequim imperial, não passava de um vilarejo de pescadores há um século e meio - mas já impregnada do sentimento de que estava destinada a um grande futuro. Era um sonho de estrangeiros, um porto para mercadores ocidentais que trocavam ópio por chá e seda.Os edifícios erguidos à beira-rio, no trecho conhecido como Bund (palavra derivada do hindi), manifestavam o poder de nações estrangeiras, não o da China. Ali desembarcavam ondas de imigrantes, criando uma exótica mescla de banqueiros britânicos e dançarinas russas, missionários americanos e grã-finos franceses, refugiados judeus e seguranças siques com turbantes.Na década de 1930, Xangai estava entre as dez maiores cidades do mundo. Mas não se parecia com nenhum outro lugar no planeta: era uma metrópole mestiça famosa pela facilidade de enriquecer - e pelos padrões morais relaxados.
Britânicos, franceses e americanos dividiam a cidade em setores próprios, erguendo belas mansões em ruas arborizadas. O comércio local exibia as modas e os produtos de luxo mais recentes. O hipódromo dominava o centro, cuja vida noturna oferecia de tudo, de salões de baile a clubes sociais, antros de ópio e bordéis. (Dizia-se que Xangai tinha mais prostitutas que qualquer outra cidade no mundo.)
A cortina finalmente baixou em 1949. Durante as quatro décadas seguintes, os mandatários comunistas empenharam-se em punir Xangai por seu papel como uma espécie de Babilônia moderna. Além de forçar ao exílio a elite econômica e suprimir o dialeto local, Pequim apropriou-se de quase todos os recursos financeiros da cidade. Quando, nos anos 1980, tiveram início as reformas econômicas no país, Xangai teve de esperar por quase uma década até que as autoridades centrais permitissem seu desenvolvimento. "A pergunta que estava no ar era: Afinal, quando vai chegar a nossa vez?", diz Huang Mengqi, um designer e empresário de moda que tem loja nos arredores do Bund.
Agora chegou a vez de Xangai. A cidade está impaciente para recuperar a glória passada, só que, desta vez, nos próprios termos. Duas décadas atrás, os edifícios no Bund fitavam, para além do rio Huangpu, uma várzea agrícola e algumas fábricas dispersas; hoje a mesma área está repleta de arranha-céus, entre os quais o World Financial Center, com 101 andares. No total, a cidade já construiu mais de 4 mil edifícios de grandes dimensões. Para um local antes dominado por riquixás e bicicletas, o dado mais extraordinário talvez não seja vertical, e sim horizontal: quase 2,5 mil quilômetros de novas ruas e estradas foram abertas - há dez anos, elas simplesmente não existiam.
A cidade já teria comprometido 45 bilhões de dólares, mais do que foi gasto nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim. Boa parte desses recursos foram investidos em infraestrutura, incluindo dois novos terminais no aeroporto, a ampliação do metrô e uma reforma no Bund. Mas, dada a crise global, será possível que a Feira Mundial alcance a quantidade prevista de 70 milhões de visitantes? Xangai espera superar as rivais Pequim e Hong Kong, mas também acalenta uma ambição bem maior: tornar-se o centro financeiro e cultural do mundo no século 21. "Se alguma cidade tem essa chance, é Xangai", diz o professor Xiangming Chen, da Universidade de Fudan. "Mas a grandeza da cidade não pode ser alcançada só com obras civis. A questão é como reconstruir o senso comunitário que se perdeu com a demolição do velho e a construção do novo?"
Ninguém precisa lembrar a Jin de que as condições de sua vizinhança tradicional, ou lilong, pioraram muito desde que mudou para lá, ainda adolescente, em 1937. Na época, esse lilong - um dos milhares que abrigavam tradicionais casas chinesas com pátio interno, adaptadas para quarteirões com estreitas vias de inspiração europeia - fazia jus a seu nome: Baoxing Cun, ou "vila da riqueza e da prosperidade". Então, cada família ocupava uma casa, muitas vezes rodeadas de criados e puxadores de riquixá.Atualmente, oito famílias apertam-se na casa assobradada de Jin - uma em cada aposento. Não há água encanada. A cozinha resume-se ao fogão elétrico. Mesmo assim, quando o neto de Jin a convidou e ao avô a se mudarem para um moderno condomínio no subúrbio, ela recusou. "Em que outro lugar", pergunta Jin, "eu iria encontrar esse sentimento comunitário?"
O fato é que esses antigos bairros de Xangai estão desaparecendo. Em 1949, pelo menos três quartos dos xangaineses viviam em lilongs; hoje, resta apenas uma fração deles. Contudo, as vielas densamente habitadas do Baoxing Cun ainda evocam o sentimento comunitário que fez dos lilongs o berço da cultura xangainesa.
Hoje o papo bem-humorado das senhoras é ensombrecido por especulações. "Há rumores de que somos os próximos na fila da demolição", conta Jin. Para muitos xangaineses, as décadas de negligência oficial e a superpopulação transformaram a atmosfera de intimidade dos lilongs em algo asfixiante. Mas Jin teme que a demolição do Baoxing Cun leve à dispersão de suas amigas por subúrbios distantes. "Quem sabe quanto tempo ainda resta?", indaga ela.
Xangai empenhou-se mais que a maioria das cidades chinesas na proteção de seu patrimônio arquitetônico, preservando da destruição centenas de mansões e sedes de bancos erguidas antes da época comunista. No entanto, só uns poucos lilongs foram incluídos entre as áreas protegidas. Ruan Yisan, professor de urbanismo na Universidade Tongji, vem empreendendo uma campanha para salvar esses arquivos vivos da cultura da cidade. "As autoridades deveriam acabar com a pobreza, não com a história", diz ele. "Ninguém se opõe a que as pessoas vivam melhor, mas não deveríamos jogar fora o passado."
Por isso, foi uma surpresa para seus amigos quando Zhang se juntou à debandada rumo aos subúrbios. Milhões de xangaineses mudaram-se do centro da cidade nos últimos 15 anos, empurrados pela destruição dos lilongs e pelo sonho há muito reprimido de viver em locais mais espaçosos. A família de Zhang hoje mora em um apartamento de três quartos em um conjunto de arranha-céus com áreas gramadas impecáveis e um playground para sua filha de 7 anos, Jiazhen. Mas o condomínio fechado não tem nada da vida vibrante do lilong em que cresceu Zhang.A migração para os subúrbios mais do que triplicou o espaço de moradia per capita nos últimos 30 anos; mas isso vem dilacerando a cultura de Xangai. Os vizinhos raramente se conhecem, a despeito de iniciativas comunitárias, como clubes e parquinhos infantis. Nessa etapa, os vínculos mais fortes entre os moradores talvez sejam seus interesses como proprietários.
Uma das vítimas da debandada urbana pode ser o dialeto local de Xangai. Ele vem perdendo espaço desde a década de 1950, quando Pequim lançou uma campanha para unificar o uso da língua no país, difundindo uma versão padronizada do mandarim. Os lilongs contribuíam para a sobrevivência do dialeto, mas, nos subúrbios, as famílias mantêm poucos contatos sociais. Mesmo assim, muitos daqueles que se orgulham de ser xangaineses usam o dialeto como um código secreto para indicar que são legítimos nativos da cidade - o que lhes rende melhor tratamento no comércio local.Zhang, porém, logo se desencantou dos subúrbios. Agora a artista e sua família pretendem voltar ao centro da cidade. O motivo ostensivo é a matrícula de Jiazhen em uma escola particular, mas o fato é que Zhang também não quer privar a filha de um senso mais arraigado de identidade. "Todas as melhores lembranças que tenho vêm dos sons que ouvia aos 6 anos, quando acordava no lilong", conta ela. "As conversas na rua, os vendedores de camarão - a vida real."Chen Dandan passa os dias suspenso dezenas de metros acima do centro de Xangai como operário de arranha-céus. Mas esse migrante de 26 anos só sente vertigem quando volta para casa e passa pela rua Nanjing, que abriga as lojas mais sofisticadas da cidade. Ainda vestindo o sujo macacão azul e o capacete amarelo de segurança, Chen para diante de uma vitrine da Gucci e namora uma Ferrari vermelha cujo preço equivale a 80 vezes sua renda anual de 3 500 dólares. "Há muita gente com dinheiro", comenta, "mas somos nós que estamos construindo Xangai."Tal como no passado, o atual surto de crescimento da cidade não teria sido possível sem investimentos externos - e a abundante mão de obra de trabalhadores de outras regiões. Dos 20 milhões de habitantes, um terço é de migrantes sem permissão de residência. Muitos desses waidiren - forasteiros - vivem em comunidades bem organizadas. Outros, como Chen, são parte de uma população flutuante que forma o escalão mais baixo da sociedade xangainesa.No passado, a maioria dos migrantes tornava-se parte da cultura da cidade, vivendo nos lilongs e aprendendo o dialeto local. Hoje, porém, em uma época de comunicações e transportes facilitados, esse tipo de assimilação é raro. Chen trabalha em Xangai há dois anos, mas nunca considerou a possibilidade de ali viver definitivamente - tampouco aprendeu alguma palavra de xangainês. E envia a maior parte de seu salário para a família, na vizinha província de Jiangsu.Quando não está no abrigo subterrâneo tocando punk rock, Sammy costuma ficar empoleirada no 24o andar de uma nova torre residencial no centro da cidade, onde fica o apartamento que divide com quatro outras jovens solteiras. Em 1987, o ano em que ela nasceu, esse prédio de 28 andares se destacaria; hoje há centenas de outros mais altos. Pela janela, ela aponta, além do rio Huangpu, para a pirâmide invertida que vai ser o pavilhão principal da Expo 2010.A explosão urbana de Xangai vai continuar por muito tempo após o encerramento da exposição. Todas as demolições e construções ressaltam uma característica dos xangaineses: a obsessão pelo novo. As parceiras musicais de Sammy dizem que ela é "a típica jovem de Xangai", não só por se voltar para o exterior em suas preferências musicais (a roqueira Avril Lavigne), de moda (a revista japonesa Vivi) e de estilo de vida (a decoração de sua casa tem mais a ver com o seriado Friends que com Confúcio). Mas sobretudo pela facilidade desenvolta com que mescla as novas ideias a seu estilo xangainês.Quando recentemente a banda Black Luna fez fotos promocionais, as roqueiras usaram vestidos formais com babados, e Sammy apareceu com uma gargantilha da década de 1930. "Queríamos capturar o glamour da antiga Xangai", diz ela. Mas não por nostalgia. Era só o caso de uma banda xangainesa antenada revirando a história em busca de um detalhe estiloso. Nessa cidade que sempre se renova, o ritmo é tão acelerado que o passado pode acabar virando o futuro. E o velho pode ser renovado outra vez.
Revista National Geographic Brasil - março/2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cores reais - A transformação da Groenlândia

A água do degelo escavou um cânion azul com 45 metros de profundidade.
O manto de gelo está derretendo - mas isso é motivo de otimismo para os groenlandeses.
Por Mark JenkinsFoto de James Balog

À primeira vista, a Groenlândia é uma imensidão de brancura ofuscante. No entanto, quando o helicóptero em que estou sobrevoa em baixa altitude a ilha, é impossível deixar de notar as cores. Por quilômetros sem fim, as faixas azuladas da água do degelo acompanham os limites do manto de gelo. Campos esbranquiçados estão agora entremeados de rios sinuosos, entalhados por fendas e salpicados de lagos. Também há o gelo que não parece branco nem azul, mas antes pardo e até preto - escurecido por uma substância conhecida como crioconita. Essas partículas de aparência turva são o principal tema de investigação dos meus quatro companheiros: o fotógrafo James Balog e seu assistente, Adam LeWinter, o geofísico Marco Tedesco e o doutorando Nick Steiner, ambos da faculdade City College, de Nova York.
Balog fotografa o gelo - e a ausência dele. Em 2006, ele fundou o projeto Extreme Ice Survey (EIS, "sondagem extrema do gelo") para "criar uma memória de coisas que estão desaparecendo", diz. O EIS já instalou mais de 35 câmeras automáticas, alimentadas por painéis solares e à prova de nevascas, em geleiras no Alasca, em Montana, na Islândia e na Groenlândia - todas elas captando imagens dia após dia, de 4 mil a 12 mil fotos por ano, como "olhos observando o mundo lá fora para nós", comenta Balog.
Montamos o nosso acampamento no interior, a 70 quilômetros do vilarejo de Ilulissat, na costa oeste da Groenlândia, em um trecho da zona de degelo na qual a remoção das camadas superiores do manto de gelo deixa exposto o chamado "gelo azul". Trata-se de um gelo antigo e de tal modo compactado que grande parte das bolhas de ar - que normalmente refletem a luz e conferem ao gelo a aparência leitosa ou branca - foi eliminada. Com uma quantidade menor dessas bolhas, o gelo absorve a luz da extremidade vermelha do espectro, refletindo a parte azulada. Conforme os efeitos provocados pela luz solar, o gelo azul também pode parecer branco.O acampamento está junto à margem de um imenso lago formado pela água do degelo. Tedesco e Steiner investigam a sua profundidade para comparar essas informações com as sondagens, feitas por satélites, da profundeza de outros lagos supraglaciais na Groenlândia. Toda manhã, eles lançam à água um pequeno barco para a coleta de dados. É um barco em miniatura, controlado por rádio e equipado com sonar, espectrômetro conectado aos notebooks dos cientistas, GPS, termômetro e uma câmera submarina.
Os lagos de degelo da Groenlândia costumam esvaziar de maneira inesperada e rápida. Por isso, Tedesco optou por um barco de pesquisa não tripulado. Certa vez, Balog viu um lago desses esvaziar da noite para o dia. A base de um dreno de geleira - um canal vertical no gelo - se rompeu e deu vazão a toda a água acumulada no lago. Já em 2006, uma equipe de glaciólogos conseguiu registrar a drenagem de um lago supraglacial com 5 mil metros quadrados. Mais de 40 bilhões de litros de água sumiram por um dreno de geleira em apenas 84 minutos, num ritmo mais rápido do que a vazão das cataratas do Niágara.
O lago que Tedesco está estudando tem um canal de escoamento que deve levar a um sôfrego dreno de geleira, que LeWinter e eu decidimos localizar. Equipados com piquetas, parafusos de gelo e cordas, nos pusemos a caminho. Mal havíamos percorrido 400 metros quando topamos com buracos no gelo. Como suas bordas estava todas muito próximas umas das outras, fomos obrigados a saltar por cima deles, de uma borda aguçada para a outra - mais ou menos como brincar de pula-sela sobre lâminas de navalha.
Tentamos ainda uma rota alternativa, seguindo uma crista de gelo paralela ao canal. Dessa vez, avançamos bastante e percorremos alguns quilômetros sobre o manto de gelo. Na caminhada, não conseguimos localizar o dreno de geleira, mas notamos um aspecto intrigante: no início da jornada, os buracos que tivemos de saltar eram circulares e isolados, mas, no trajeto de volta, apenas meio dia depois, o derretimento é tão acelerado que os buracos já estão interligados por córregos de correnteza rápida.
De volta ao acampamento, à noite, descobrimos o que Tedesco e Steiner haviam constatado a respeito do fundo do lago: ele estava todo mosqueado de crioconita, que surge na forma de partículas disseminadas pelo vento sobre o gelo. Ela é composta de poeira mineral recolhida de locais tão distantes quanto os desertos da Ásia Central, de partículas de erupções vulcânicas e de fuligem. Esta, por sua vez, vem de incêndios provocados pelo homem e dos naturais, de motores a diesel e de usinas termelétricas. A crioconita não é um fenômeno novo: em 1870, o explorador ártico Nils A. E. Nordenskiöld descobriu e batizou esse fino sedimento escuro em uma visita ao manto de gelo da Groenlândia. Desde então, as atividades humanas aumentaram muito a geração de crioconita, que agora adquiriu maior importância devido ao aquecimento global.O geofísico groenlandês Carl Egede Bøggild dedicou os últimos 28 anos ao estudo do manto de gelo. Recentemente, ele concentrou suas pesquisas na crioconita. "Mesmo que ela seja composta de menos de 5% de fuligem", comenta ele, "é esta que a torna negra." O tom escuro gradualmente reduz o albedo, a proporção de luz refletida pelo gelo, e isso aumenta a absorção de calor - o que por sua vez intensifica o derretimento.Todos os anos, cai neve nova sobre o manto de gelo, salpicando-o com crioconita. À medida que se consolida, a neve absorve essa poeira. Quando os verões são especialmente quentes, como nos últimos anos, há o derretimento de várias camadas de gelo, liberando quantidades adicionais de crioconita, o que resulta em uma camada mais escura e concentrada dessa substância na superfície. "O que temos é um ciclo vicioso em constante aceleração", diz Bøggild. "É como estender um coberto escuro sobre o gelo."Mesmo durante a nossa breve expedição na Groenlândia, foi possível notar esse efeito. Em apenas uma semana, o derretimento do gelo transformou nosso acampamento em um lodaçal escorregadio. Em algum ponto distante dali, o dreno de geleira que havíamos procurado sugou a água do lago. As câmeras automáticas de Balog captaram todo o processo. "Elas estão registrando o pulso do planeta", comenta ele.Antes do término da expedição, Balog me convence a descer por um dreno de geleira bem ao lado do acampamento - um dos maiores que a equipe do EIS encontrou em suas 11 expedições ao território. Ele é largo o bastante para sugar um trem de carga - e certamente o suficiente para me engolir para sempre. Mesmo assim, não consigo resistir a fazer rapel na bocarra desse abismo, chamado por Balog de "a Fera".Preso a cordas cobertas de gelo, começo a lenta descida. Trinta metros abaixo, no imenso poço, circundado por paredões de gelo azul, fico empapado com os gélidos borrifos. Acima de mim, o céu ártico, muito azul, está emoldurado em pingentes de gelo denteados com a altura de três andares. Lá embaixo, desaparecendo no fundo do abismo glacial, está a cascata trovejante que perfurou esse poço. Natureza bruta.Os cientistas lançaram patinhos de borracha amarelos, esferas com sensores e enormes quantidades de corantes nesses drenos gigantescos com o objetivo de identificar o percurso que fazem e descobrir em que ponto do litoral da Groenlândia eles desembocam. Algumas das esferas e dos traços de corante já foram localizados, mas todos os patinhos sumiram. Embora tentado a descer ainda mais, e continuar a investigar, penso melhor e decido retornar. Depois de 20 minutos pendurado dentro do abismo, subo pela parede, de volta à imensidão azul do Ártico.

National Geographic Brasil - Junho 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Monte Santa Helena


O monte Santa Helena, ladeado pelo monte Adams (mais à esquerda) e o monte Hood, está retornando aos trancos à paisagem vulcânica. Há três décadas, a erupção da montanha matou 57 pessoas e destruiu mais de 500 quilômetros quadrados de floresta.Foto de Diane Cook e Len JenshelApós um tremor de 5,1 na escala richter, o lado norte do monte entrou em violenta erupção provocando danos ambientais numa área de 550 km2. A cinza emanada da erupção provocou problemas respiratórios nos habitantes até 1500 quilómetros de distância do vulcão. Como resultado da explosão a altura da cratera do vulcão diminuiu cerca de 400 metros, passando de 2950 para 2549 metros, e teve sua largura aumentada de cerca de dois quilômetros.
Revista National Geographic brasil Maio/2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

Entrevista com o cientista Jefferson Simões


O cientista e explorador polar, Jefferson Simões, liderou a primeira expedição brasileira ao interior do continente antártico. Além de professor no Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, é coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera

Para Jefferson Cardia Simões, este Natal será bem diferente do de 2008. Ele poderá estar no aconchego de sua casa em Porto Alegre, ao lado da mulher, Ingrid, e dos filhos Felipe, de 22 anos, e Carolina, de 20. “No ano passado, eu estava ao lado de outros sete pesquisadores, ao redor de um pequeno fogão, no interior de uma barraca, à temperatura de 8 graus negativos, a mil quilômetros do polo Sul geográfico. Sorte que havia um bom vinho chileno para esquentar”, lembra-se ele. Desde 1990, Simões já esteve na Antártica 17 vezes. Essa última investida, porém, foi especial: entre 1o de dezembro de 2008 e 13 de janeiro deste ano, liderou a expedição Deserto de Cristal, a primeira incursão nacional ao interior do continente antártico. Cientista com doutorado no Instituto de Pesquisa Polar Scott da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Simões, de 51 anos, é o primeiro brasileiro a especializar-se em glaciologia, a ciência do gelo em todas as suas formas e seu papel no sistema ambiental



Assim, a composição química da atmosfera daquele período fica preservada. Ao se perfurar os poços no gelo, podemos analisar as impurezas e os gases ali contidos e obter inúmeros relatos ambientais ocorridos ao longo do tempo. Entre outros dados, conseguimos olhar para trás e verificar as atividades vulcânicas da Terra, descobrir fontes terrestres de poeira, comprovar a extensão de mares congelados, investigar atividades biológicas terrestres e marinhas e determinar as variações da temperatura da atmosfera. Por meio desses estudos, por exemplo, os cientistas determinaram, desde o início da Revolução Industrial, um aumento de 36% na concentração de dióxido de carbono (CO2), um dos gases responsáveis pelo aquecimento global. As atuais concentrações desse gás são as maiores ao longo dos últimos 800 mil anos.


Qual foi o principal objetivo da expedição Deserto de Cristal?

Fomos à Antártica para, entre outros objetivos, obter o que chamamos de testemunho de gelo. Trata-se de cilindros que têm entre 5 e 10 centímetros de diâmetro retirados do manto de gelo antártico. Conseguimos extrair um testemunho de 95 metros de profundidade que revela a história da precipitação química da atmosfera dos últimos 250 anos. Com isso, podemos entender melhor os processos de mudanças globais no clima.

O que esses indícios de gelo antigo revelam?

Muita coisa. Eles nos contam o que aconteceu na atmosfera terrestre ao longo das últimas centenas ou milhares de anos. Os testemunhos são retirados de geleiras e mantos de gelo formados pela neve que se acumulou em camadas horizontais. Ao cair, a neve carrega consigo inúmeras impurezas presentes na atmosfera. Em seguida, devido à pressão das camadas depositadas posteriormente, a neve se transforma em gelo.

Qual o testemunho mais antigo?

Franceses e italianos extraíram um na Antártica que tem cerca de 800 mil anos. Nos próximos dez anos, o grande desafio é atingir um gelo de 1,5 milhão de anos. No total, foram 44 dias no continente antártico, 16 deles no acampamento avançado, um lugar remoto, a 80 graus de latitude sul.

A Antartica pode também conter indícios dos incêndios florestais comuns no Brasil?
Isso ainda não está claro. No Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, pretendemos detectar e determinar a quantidade de subprodutos da queima da biomassa, como a da Floresta Amazônica, transportados para a Antártica. Esse trabalho começou no primeiro semestre de 2008
Teremos mais parte da entrevista aguardem...

Outro Saara...

No coração do Saara, a água da chuva que caiu há milênios empoça na cratera vulcânica de Waw na Namus. Ventos carregaram as cinzas da última erupção por 20 quilômetros.


Uma rara vista aérea da região líbia do Fezzan, em que antigas sociedades florescem e desaparecem assim como o vaivém das chuvas.
Por Charles BowdenFoto de George Steinmetz
Um vento milenar sopra des-de as profundezas do tempo. O Saara nos impacta como um inferno perene de dunas sob o céu azul. Suas paisagens nos deslumbram, mas nada indica que estamos diante de um dos maiores depósitos de registros geológicos da Terra. O passado sobrevive ali e nos fala através da areia, das pedras, do calor e dos ventos secos. Sussurra em nossos ouvidos uma história de mudanças climáticas ocorridas aos trancos e solavancos, bem como do avanço e do recuo da humanidade. David Mattingly lidera um time de pesquisadores do Projeto sobre Migrações no Deserto, cujo trabalho nos remete à pré-história. São viajantes do tempo a navegar pelo Saara em busca de vestígios dos nossos antepassados. Eles conquistam dunas com mais de 30 metros de altura e abrem novos caminhos para se apreciar esse deserto. No sudoeste da Líbia, uma região conhecida com Fezzan é o coração palpitante do Saara, um lugar inacessível, repleto de mares de areia, wadis (leitos de rios intermitentes no norte da África), montanhas, platôs, oásis e mistério. Entre 500 a.C. e 500 d.C., estima-se que cerca de 100 mil pessoas viveram da terra ali, em uma área que costuma receber só alguns milímetros de chuva por ano - quando recebe. "É muita gente para os padrões da paisagem hiperárida do Saara central", diz Mattingly. Arqueólogo da Universidade de Leicester, ele tornou-se um escravo do deserto. "Trabalho na Líbia há 30 anos e desde logo fiquei maravilhado com as paisagens." Muitos partilharam da mesma sina. As pessoas ficam viciadas na luz brilhante e nos horizontes limpos. Onde muitos veem um vazio sem fim, outros enxergam a claridade. Se recuarmos até o período entre 1822 e 1825, flagraremos o explorador escocês Hugh Clapperton mergulhado no deserto a sudoeste da Líbia. Em 7 de novembro de 1824, atravessando a secura do chão, Clapperton topa com uma escrava abandonada "para perecer no deserto hoje, com uma cabeça inchada - incapaz de andar - sem reações". Ele encontra um dos criados do amo encolhido ao lado da mulher, "esperando ali pela morte dela, não para enterrá-la, mas para se apoderar dos escassos andrajos que a cobriam". Ela não consegue montar um camelo, está fraca demais. O explorador acha que não deve se demorar ali para não morrer também. O vento é frio, ele observa. E toca em frente. Esse é o Saara dos horrores. Um mar ressecado de areia e pedra, infestado de escorpiões, em que víboras serpenteiam sob um sol inclemente. A Líbia é grande, do tamanho de Itália, França, Espanha e Alemanha juntas. E quase todos os seus 6 milhões de habitantes vivem na costa do Mediterrâneo. Para entender-se a região, devemos dar as costas ao mar e mirar o sul. Noventa e cinco por cento da Líbia são desertos, 20% são dunas e nenhum rio perene passa por ali. O Saara líbio detém o recorde mundial de calor (57,8ºC) e é capaz de gelar os ossos de uma pessoa em uma noite de inverno. Ibrahim al-Koni, o maior romancista do país, foi criado como tuaregue no Fezzan. Em seu livro A Pedra Que Sangra, ele cita uma canção sufi:
O deserto é um verdadeiro tesouro para quem busca refúgio dos homens, da maldade dos homens. Nele há contentamento, nele há morte e tudo que procuras. O Fezzan revela milhares de anos de uma luta da vida contra a mudança, de seres humanos adaptando-se ao meio hostil. É uma máquina do tempo que faz o passado esbofetear nossa cara. Nós, modernos, admitimos com relutância que o passado é a história de mudanças climáticas, de grandes migrações, de ascensão e queda de nações. Mesmo assim, agimos como se nosso presente fosse o capítulo final. No Saara, porém, qualquer visitante se confronta com uma história longa demais a nos lembrar de que o atual capítulo é tênue e frágil.
As investigações de Mattingly levam-no até o Mar de Areia de Ubari, onde, por incrível que pareça, há muitos laguinhos da cor de pedras preciosas, alguns púrpura, outros alaranjados, por causa dos minerais e das algas. Eles são a lembrança quase desidratada de uma época anterior, quando o lençol freático corria mais próximo da superfície que hoje. É difícil imaginar, mas um lago do tamanho da Inglaterra, o Megafezzan, existiu ali há cerca de 200 mil anos, quando chuvas eram abundantes e, como provam os antigos canais, os rios corriam pelo centro do deserto. As mudanças climáticas têm ocorrido feito um interruptor que liga e desliga no Saara. No tempo seco, os lagos minguavam e a vegetação reduzia-se a nichos. Então, quando dias mais úmidos retornavam, os lagos se enchiam e partes do Saara viravam savana. Comunidades humanas pulsaram por lá como uma explosão de plantas depois de uma chuva rara. Nas eras úmidas, prosperavam. Nas secas, encolhiam ou se extinguiam. Com base em imagens de radar, Kevin White e Nick Drake, membros da equipe do Projeto de Migrações, mapearam a localização de resíduos minerais de antigos lagos e nascentes. Depois, os paleoantropólogos Robert Foley e Marta Mirazón Lahr descobriram artefatos de pedra, pontas de flecha, indícios de fogueiras, túmulos. Os mais antigos seres humanos na região eram caçadores e coletores que viviam em uma savana há cerca de 130 mil anos. Esse povo foi sumindo à medida que as chuvas começaram a rarear, 70 mil anos atrás. Quando as chuvas voltaram, as pessoas também retornaram. Riscadas nas pedras do deserto estão as memórias de um Saara mais úmido, quando criaturas dependentes de água, como leões, elefantes e rinocerontes, viviam ali. Algo curioso ocorreu quando a mais recente fase úmida terminou. Há cerca de 5 mil anos, as chuvas cessaram de novo, os lagos desapareceram e o deserto venceu. Dessa vez as pessoas permaneceram. A arte rupestre registra a transição da caça ao pastoreio. Na sequência surgiu uma sociedade que começaria a construir cidades e daria início à agricultura: a civilização garamante. Os garamantes floresceram ali em um clima bem parecido com o do Saara de hoje. Estudiosos achavam que eram nômades do deserto. Mas escavações no sítio em que ficava Garama, sua capital - e onde hoje se ergue Jarmah -, além de sondagens no terreno feitas pela equipe de Mattingly, revelaram que era um povo sedentário, que vivia de agricultura de oásis. Eles construíram um sofisticado sistema de irrigação que lhes permitia plantar trigo, cevada, sorgo, tâmara e azeitona. Canais subterrâneos - chamados de foggaras - levavam a água dos lençóis freáticos aos campos. Quase mil quilômetros desses canais ainda podem ser detectados. O sistema funcionou bem por centenas de anos. Até que a água "fóssil", armazenada nas épocas chuvosas, começou a desaparecer. E a civilização teve fim. O Saara parece uma barreira à primeira vista, dividindo a África em dois pedaços. Mas, para os seres humanos que viveram na Líbia por milhares de anos, era um corredor. Ouro, marfim e escravos chegavam ao norte vindos da África subsaariana. Azeite de oliva, vinho, vidros e outros produtos do Mediterrâneo rumavam para o sul. O comércio criou uma imagem duradoura em nossa cabeça: a caravana trilhando seu caminho por imensas dunas. O corredor do Saara pode ter sido uma das passagens usadas por nossos ancestrais ao deixarem a parte oriental do continente para povoar o resto do mundo. Estudiosos sustentam que os primeiros seres humanos se expandiram para além da África subsaariana rumo à Eurásia, migrando tanto ao longo do rio Nilo quanto através do Sinai ou do mar Vermelho. Agora outra hipótese está sendo explorada: a de que o Fezzan pode ter feito parte de um longo corredor migratório por onde alguns seres humanos modernos chegaram ao litoral do Mediterrâneo e, a partir dali, cruzaram o Sinai. Talvez ao cruzar esse mar de areia, nossos ancestrais tenham caminhado pelo Great Rift Valley, ou, literalmente, o "Vale da Grande Fenda", uma depressão de aproximadamente 6 mil quilômetros de extensão que rasga o território de vários países africanos. E o resultado é sermos quem somos hoje. Mattingly diz que gosta da arqueologia porque "ela traz lições aos dias de hoje". Mil e quinhentos anos após o declínio dos garamantes, o governo líbio está construindo o "Grande Rio Feito pelo Homem", uma série de imensos aquedutos que fará minar antigas reservas de água subterrânea existentes debaixo do Saara, água que será usada para fazer o deserto brotar. A água que está sendo bombada se depositou ali dezenas de milhares de anos atrás, em tempos bem mais úmidos. O lençol d’água já declina por causa do bombeamento. O projeto tem uma vida estimada de apenas 50 ou 100 anos, um piscar de olhos nessa região. O último capítulo do Fezzan ainda está por ser escrito.

Nota do professor: Nada melhor que viajar e conhecer cada pedaçinho do mundo...quem diria que o Saara podeiria dar esse espetáculo...

National Goegraphic Brasil Out/2009

A caminho de Copenhague

Tasso Azevedo, consultor do ministério do Meio Ambiente em questões de clima e florestas, está definindo os últimos detalhes da pauta que a comissão brasileira defenderá na 15ª Confederação das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a COP-15), que acontece em dezembro na capital da Dinamarca.
Por Afonso Capelas Jr. e Matthew ShirtsFoto de Luciana de Francesco
Formado em engenharia florestal - profissão incomum no Brasil, mas que tem despertado o interesse de muitos jovens estudantes -, Tasso Azevedo foi, até abril, diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), criado pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Hoje, ele é consultor do ministério em questões de clima e florestas. Jovem (37 anos) e determinado, Azevedo acredita que, assim como a internet, sua profissão é um universo de possibilidades a ser ainda explorado. Por isso, além do envolvimento com a posição que o Brasil levará à 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a COP-15), em Copenhague, ele se dedica a estimular o uso das redes sociais da web em benefício do monitoramento voluntário das florestas brasileiras, a fim de gerar conhecimento coletivo e efetiva proteção. Envolvido dia e noite em viagens e reuniões para definir os últimos detalhes da pauta que a comissão brasileira defenderá, em dezembro, na capital da Dinamarca, Azevedo acredita que no encontro "se discutirá o maior desafio da humanidade hoje, cujo interesse é comum a todos nós e de onde esperamos uma decisão importantíssima. Quero ajudar o Brasil a ser, em Copenhague, um dos protagonistas de um acordo".
Qual o desafio para as nações no encontro de Copenhague?
Conseguir um acordo que coloque o mundo num caminho ousado de redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) que permita evitarmos que a temperatura média do planeta suba mais de 2ºC no século 21. Não é fácil. A menos de 100 dias de Copenhague, ainda estamos longe de um compromisso da magnitude necessária. O mundo tem de se reinventar, transformar seu modo de vida de forma mais profunda, intensa e rápida que em qualquer outro momento da história, mesmo quando comparado à Revolução Industrial.
Há um consenso em que a biodiversidade do planeta Terra não pode suportar um aumento de 2ºC de temperatura média?
Essa convicção foi se consolidando mundo afora a cada relatório divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês). Até recentemente o Brasil não expressava sua posição sobre esse aumento da temperatura. Em junho, após vários debates internos, assumiu pela primeira vez, em uma submissão à Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - um documento que o país apresenta para expressar suas posições antes das grandes negociações internacionais -, que nós devemos garantir que a temperatura não supere 2ºC adicionais sob o risco de termos sérias ameaças à vida na Terra. O Brasil foi chave para convencer chineses e indianos a assumirem tal posição, o que possibilitou que o grupo das 17 maiores economias do mundo assinasse a Carta de Aquila, na qual expressam a necessidade de estabelecer metas globais de redução das emissões de GEE para não ultrapassarmos os 2ºC. O Brasil propôs também que isso seja monitorado para que não passemos de 0,2ºC a cada dez anos e, assim, seja possível adaptar o curso de acordo com a performance global.
Quais as consequências caso o limite de 2ºC seja ultrapassado?
Hoje se diz que 2ºC é um aumento de temperatura perigoso, mas é o máximo aceitável. A partir daí os cenários mostram um custo e um risco muito altos para a humanidade se adaptar. Isso está baseado em simulações que estão sendo aperfeiçoadas, no Brasil, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os modelos climáticos com base nos 2ºC de temperatura mostram situações bem difíceis - acima disso, será ainda pior. É o caso da Amazônia: se chegarmos a 3ºC de aumento da temperatura do planeta, podemos ter um processo de seca e de mudança da estação chuvosa que vai alterar completamente a característica física de metade da área de floresta. E isso é um desastre, pois afetará o regime de chuvas no Brasil, com consequências graves na geração de energia e na produção agrícola e pecuária, apenas para citar alguns efeitos. Outro ponto que já chama a atenção é o limite de concentração de carbono na atmosfera, de 450 partes por milhão (ppm de partículas de GEE). Se ficássemos abaixo disso, por volta de 380 ppm, seria melhor. Haveria uma possibilidade maior de a temperatura subir menos de 2ºC.
Será complicado reduzir as emissões a esse nível de tolerância?
Muito. Essa redução depende não só das emissões mas também do chamado "decaimento", o período em que o carbono e outras moléculas equivalentes demoram para desaparecer da atmosfera. Em torno disso há grande polêmica. O efeito do metano é 21 vezes maior que o do carbono, mas parece que seu decaimento é bem mais rápido. Por outro lado, agora está se dizendo que o carbono não vai ficar 100 anos na atmosfera, e sim mais tempo. São questões complexas. O decaimento é um ponto importante porque está ligado a nossa capacidade de reduzir a concentração de gases se ultrapassarmos 450 ppm. De uma maneira simples, toda a vez que emitimos mais GEE do que o planeta é capaz de absorver, somado ao decaimento desses gases, aumentamos a concentração, que hoje está em cerca de 390 ppm e cresce cerca de 2 a 3 ppm por ano.
Já há algum consenso mundial sobre esses limites de concentração na atmosfera? Existem três números muito falados, oriundos de cenários simulados pelo IPCC. Acima de 510 ppm, os cenários mostram que a chance de o aumento de temperatura ficar abaixo de 2ºC é praticamente nula. Já abaixo de 380 ppm, todos os cenários mostram que a temperatura não cresce mais de 2ºC. Então, 450 ppm - número que representa uma chance de cerca de 60% de ficarmos abaixo de 2ºC de aumento de temperatura - têm sido a referência mais usada pelos países.
E o que precisa ser feito para estabilizar abaixo de 450 ppm?
Segundo o IPCC, deveríamos limitar as emissões de GEE em 1,8 mil GtCO₂e (1 bilhão de toneladas de GEE expresso em CO₂ equivalente) ao longo do século. Isso dá cerca de 18 Gt/ano, só que estamos emitindo quase 45 Gt/ano - e as emissões estão crescendo. Se parássemos de crescer nossas emissões até 2020, ainda assim teríamos emitido quase metade do total que poderíamos emitir no século em apenas 20 anos. Considere que 1 Gt e equivale à emissão de 1 bilhão de carros ao longo de um ano. O aumento das emissões hoje acontece nos países em desenvolvimento, sobretudo nos emergentes, em que as emissões per capta ainda são baixas. O desafio, então, é limitar as emissões promovendo uma economia nova, baseada em baixo carbono. É preciso que os mais de 400 milhões de indianos que vivem abaixo da linha da pobreza e quase não emitem GEE, por exemplo, possam se desenvolver, mas sem aumentar as emissões. Ou seja, precisamos descolar o desenvolvimento das emissões de carbono.
Tudo isso é uma reação do planeta à ação do homem?
A Terra existe há bilhões de anos, ou seja, há muito mais tempo que os seres humanos, e vai continuar ainda por muitos outros bilhões de anos. O que temos a fazer é proteger a biosfera, a vida como a conhecemos. No fundo é uma luta para proteger a nós mesmos, nossos filhos e netos.
O que precisa ser alcançado em Copenhague?
Primeiro, deve-se sacramentar o objetivo de manter a temperatura abaixo de 2ºC para que esse ponto seja uma referência na tomada de decisões. Segundo, precisamos acordar uma espécie de orçamento de emissões, ou seja, definir o quanto podemos emitir até o fim do século, com metas para reduzir sistematicamente o nível de emissões globais. Depois, precisamos dividir a responsabilidade para atingir tais metas globais - os países que sempre emitiram mais devem pagar a maior parte da conta. Por fim, há que se criar meios para pôr em prática as ações para atingir essas metas. Isso inclui mecanismos de controle, obrigações e incentivos tanto para mitigação como para adaptação às mudanças climáticas.
Há resistência a esse tipo de acordo conjunto?
Sim, porque o pensamento comum é o seguinte: se os países desenvolvidos não estão conseguindo reduzir suas emissões, mesmo com todo o poder financeiro, como nós, das nações em desenvolvimento, vamos lidar com a redução no futuro, já que dependemos de tecnologia e de recursos que virão dessas nações ricas? Ou seja, os países desenvolvidos precisam resolver o problema deles, além de apoiar as nações em desenvolvimento a se adaptar. Esse debate é legítimo. Estamos todos no mesmo barco e ele está cheio de furos. Não dá para ficar apenas discutindo quem fez os furos. É preciso arregaçar as mangas, todos, para ajudar a manter o barco na superfície.
Como fica o Brasil nessa questão?
Nós somos um país em transição, com potencial para ser o novo paradigma de desenvolvimento. Nos últimos 15 anos, penamos para estabilizar a economia e estabelecer políticas sociais arrojadas, mas agora precisamos dar um salto maior, que é o da sustentabilidade. As ONGs e as universidades vêm operando nessa agenda há alguns anos. Mais recentemente, porém, empresas e movimentos sociais começaram a cobrar do Brasil uma posição de vanguarda em relação ao clima. O governo tem começado a responder a essas demandas, como fez com a definição do Plano Nacional de Mudanças Climáticas e o estabelecimento de metas para redução do desmatamento na Amazônia. Mas é preciso fazer mais.
Quais deveriam ser as prioridades?
Em primeiro lugar, publicar todo ano as estimativas de emissões do Brasil. Depois, ter uma estratégia para implantar uma economia de baixo carbono. Também é necessário um sistema de governança que inclua uma instituição independente para operar políticas relacionadas às mudanças climáticas. Por último, o país precisa criar um plano de adaptação para as mudanças que vão acontecer pelo efeito das emissões já realizadas.
E o que já está sendo feito?
O Ministério do Meio Ambiente está implementando o sistema de estimativa de emissões do Brasil. Também está em curso o trabalho de tentar definir uma trajetória de emissões do país que incorpore não apenas a redução de emissões de desmatamento mas também as emissões da extração e do refino de petróleo do pré-sal, além do aumento das emissões relacionadas à indústria, ao setor de energia e à agropecuária.
A queda do desmatamento compensa o aumento das emissões nos setores energético e industrial?
Em 1994, ano do qual temos os dados do inventário nacional, as emissões eram de cerca de 1,47 GtCO₂e e devem ter subido cerca de 10% a 20% até 2007. Embora o aumento seja pequeno, ele se explica com a queda do desmatamento, pois os setores de energia e indústria elevaram em mais de 60% suas emissões nesse período. O perfil de nossas emissões, que em 1994 era dividido entre desmatamento, agropecuária e indústria/energia na proporção de 55%, 25% e 20%, respectivamente, deve ir para algo como 40%, 30% e 30%, ou seja, nosso perfil de emissões está aumentando com uma matriz energética mais poluente.
Em que situação o país estará em Copenhague?
Nas negociações, o Brasil tem tido historicamente uma posição confortável no seguinte sentido: ele tem uma emissão per capita relativamente baixa, e é um dos países que mais reduziu suas emissões nos últimos anos, por causa da diminuição do desmatamento. Mesmo não tendo obrigações de redução, nós devemos estabilizar ou reduzir nossas emissões até 2020, num desvio de mais de 60% da trajetória de aumento de emissões prevista para os países em desenvolvimento pelo cenário atual.
Quais seriam as propostas?
Os chineses apresentaram uma proposta de trajetória na qual eles continuam crescendo suas emissões até 2020, quando então passam a estabilizá-las e, a partir de 2030, começam a cair. Na minha opinião, não é o suficiente para o planeta. No Brasil, podemos prever uma curva em que o país atinja um pico de emissões nos próximos anos e, em 2020, retorne aos níveis de emissão de 1990. Seria uma proposta agressiva. Mas não é uma equação fácil de definir, uma vez que teremos também de lidar com a realidade do pré-sal, que deve adicionar pelo menos 100 milhões de toneladas nas emissões apenas na extração e no refino, triplicando os números atuais da Petrobras. As indústrias certamente vão cobrar do governo que um esforço delas na redução das emissões não poderá ser uma mera compensação pelas novas emissões do pré-sal. O marco regulatório do pré-sal deveria destinar uma parte importante dos recursos para o desenvolvimento de novas tecnologias e o estímulo à redução das emissões no setor industrial e à construção de uma economia de baixo carbono.
Como o Brasil pode se colocar na vanguarda do debate em torno de uma economia de baixo carbono?
Se o país não tomar uma posição proativa agora, e anunciar que também vai entrar na rota de redução de emissões, não teremos argumentos para fazer com que a modernização na indústria brasileira seja estimulada, incentivada, subsidiada para transformá-la a tempo em um setor de baixa emissão, e a ponto de torná-la competitiva. O pensamento nacional é de que é melhor estar preparado para essa competição. Mas, para mantermos essa vantagem de modernização e crescimento econômico e depois entrar na trajetória de queda das emissões, será preciso nos mobilizarmos agora.
nota: Temos que ser críticos quando falamos em meio ambiente e política. Sejamos críticos e analíticos.
National Geographic Brasil Out/2009